VIAJAR COM CRIANÇAS, O QUE APRENDI


Desde miúda amealhei para viajar mas, nos últimos 10 anos, conto pelos dedos as vezes que atravessei a fronteira. Não sou uma viajante com grande rodagem, muito menos com crianças. Talvez por isso, das muitas coisas importantes que esta primeira viagem com os meus filhos me trouxe, tenha ficado uma aprendizagem ainda maior. Partilho algumas lições e outras ideias que saíram reforçadas desta volta.

GERIR EXPECTATIVAS
Talvez o que de mais importante retive do que li sobre viajar com miúdos antes de partir. A máxima “preparar o pior e esperar o melhor” é o mantra de qualquer viagem e com crianças a bordo é essencial. Baixar ou gerir expectativas não chega. O melhor é mesmo largá-las.

SER FLEXÍVEL
A vida em viagem é outra e é bom estar aberto a coisas diferentes. Afinal, é por isso viajamos. E por vezes, as prioridades mudam ou podem mesmo inverter-se mal saimos de casa. Um bom exemplo disso foi a alegria que senti ao encontrar o Mc Donalds no aeroporto onde tivemos uma escala de 10h. Um dia não são dias e o playgound enorme, tablets e os melhores sofás, conquistaram-nos.

PREPARAR A CHEGADA
Eu tinha preparado – achava eu – uma chegada tranquila. Chegávamos às 21h00. Transfer combinado, dormíamos uma noite tranquila num hotelzinho em cima da praia e tínhamos o dia seguinte sem planos para aterrar e descansar. Mas mais vale admitir, a nossa chegada foi tudo menos pacífica. O acesso ao hotel seguia por um carreiro escuro, infindável e desembocava numas marés-vivas. Tivemos mesmo de escalar entre sets para lá chegar, com muito excitamento e cansaço à mistura. Escusado será dizer que só adormeceram alapados a mim com medo de tsunamis e terramotos.

SIMPLIFICAR
Passámos do 8 ao 80. As crianças hoje são confrontadas com mais escolhas. Muitas impossíveis, de tão desadequadas à idade. Não sou pela ditadura, mas um miúdo de 6 anos com uma ementa com 10 pratos (ou mesmo 2, às vezes) não é liberdade de escolha e sim um stress que não consegue gerir, uma receita para desastre. Tenho percebido, cada vez mais, que limitar e simplificar informação, faz a diferença. Ainda mais em viagem, quando há tantas outras novidades a processar. Menos, mais uma vez, é mais.

EVITAR GRUPOS
Depois de 15 minutos num centro de mergulho a tentar ter algumas respostas sobre como é que nos poderíamos juntar a uma saída de barco para fazer snorkeling, a Carlota foi peremptória na ideia de alugar um barco só para nós. Eu própria começava a perceber que a experiência requeria um tempo e flexibilidade que não encontraríamos em grupos. Para dizer a verdade, nem o próprio centro de mergulho estava muito interessado em levar 2 mulheres com 5 crianças entre os 2 e os 10 anos. Mas foi apenas depois de irmos que me apercebi verdadeiramente do disparate que teria sido embarcar nesse programa. Mesmo sozinhos, a nossa primeira saída esteve próxima de ser um fiasco. Ajustar óculos-tubos-e-respira-pela-boca, nadar-em-mar-aberto, barbatanas-grandes-demais, barbatanas-pequenas-demais, a-barbatana-verde-do-outro-é-que-era, foram um prato cheio. Depois de uma primeira tentativa falhada com dois miúdos a puxarem-me para o fundo, subimos os três ao barco e respirei fundo 10 vezes. Depois, voltei a tentar. Bem devagar. Uma criança de cada vez. E foi espectacular.

OLHAR ALÉM DA BIRRA
Todos caímos nesta por vezes, especialmente quando em stress. Olhar além da birra é, na verdade, um lembrete a mim mesma. 
Estávamos a 20 minutos de seguir de táxi para o aeroporto para o regresso a casa. Eu atrasada, a tentar enfiar as últimas coisas na mala, encontrar sapatos e meias e ter as crianças de duche tomado e vestidas à porta. Cirandava nisto e tentava acelerá-los: tira o fato-de-banho, calça os sapatos, vamos embora. Enquanto isso, ouvia o meu filho a fazer o mesmo enquanto jogava às cartas: anda, agora és tu, tira a carta, mais depressa. A poucos minutos de sairmos, tive mesmo de interromper-lhe o jogo, sob pena de perdermos o avião. Ele ficou revoltado. Chata, má, o diabo a quatro. Eu, nem ouvia, só a imaginar o avião a ir e nós em terra. Tentei explicar-lhe o que ele também não conseguia ouvir: sabes que temos um avião a apanhar blá blá blá, mais 5 minutos e arriscamos-nos blá blá blá. De novo, chata, má, o diabo a quatro. Então calei-me e olhei para ele. Este miúdo zangado de lágrimas gordas a rolarem cara abaixo, depois de 3 semanas intensamente feliz, estava aflito. Era difícil despedir-se. – Não queres dizer adeus, pois não? Eu também não, disse-lhe estendendo o braço. Ele chegou-se a mim e deixou-se ficar. Pouco depois as lágrimas secaram, ligou o duche e mais consolado preparou-se para as despedidas.

CONCORDAR EM DISCORDAR
Aquilo que nós gostamos e não gostamos, não é necessariamente o mesmo para os outros. Facto confirmado quando a minha filha me disse ao deitar, que o melhor desse dia tinha sido acordar com 4 macacos dentro do quarto, que entretanto fugiram, mata acima, com coisas nossas, entre elas dinheiro e documentos. Já eu, mesmo agradecendo não ter havido nada de maior, fiz tripas-coração para não chorar.

ACEITAR AS DIFICULDADES
O que me leva ao ponto seguinte. O que fica das viagens são as aventuras, mesmo quando se trata de ultrapassar uma dificuldade. O que fica é aquele momento em que tomámos banhos de piscina à noite, em que nos deixámos ficar um dia inteiro na escola para que eles jogassem à bola com crianças de todo o mundo, em que mergulhámos juntos e lado a lado de balineses, invocando a protecção dos deuses. Mas as melhores histórias, as míticas que nos colam ainda mais uns aos outros, são também aquelas em que nos perdemos nos arrozais, em que um dos miúdos escorregou numa vala de lama, ou em que fomos perseguidos por macacos.

E vocês, que histórias guardam das vossas viagens?

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.
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One Comment

  1. Concordo em absoluto, viajamos com os nossos filhos desde sempre, se bem que só agora, com 16, 15 e 10 tenhamos feito o salto até Bali!! Já fomos ao Brasil, a Cabo Verde, duas voltas à Europa de carro… Acho que aprendemos muito enquanto família, a conhecer-nos melhor, a gerir o nosso stress de adultos e crianças. Nas viagens vemos os nossos filhos a crescer, a ultrapassar as suas dificuldades, são motivo de imensa alegria e intimidade. Ficam tantas histórias para contar!… E sim, são geralmente as histórias de falhanços e de stresses que ficam para contar!…Acho que não conseguimos o mesmo com 15 dias no Algarve…

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