UM ANO SEM CARRO · 6 LIÇÕES


Há coisa de um ano, o carro cá de casa morreu. Fiquei bastante abalada, mas não posso dizer que tenha sido uma morte súbita, pois já vinha dando sinais disso há tempos.

Agora era de vez. Num primeiro momento, paniquei. Com as nossas rotinas, era complicado passar sem carro. Estava tão habituada que parecia mesmo impossível fazer diferente numa família de um adulto para duas crianças. E como é que eu ia comprar um carro bonzinho, que não me morresse nas mãos tão cedo? Tardando a resposta, ou pelo menos uma que não implicasse endividamento ou adiar outros projectos indefinidamente, comecei a questionar a urgência dessa compra. Deixa ver como isto corre durante um mês ou dois, pensei eu. E de repente, um ano passou.

Bem sei que muitas famílias se vêm nesta situação desde sempre por impossibilidade financeira e bem gostariam de ter um carro. Li mesmo, há dias que, num estudo recente, 97% dos portugueses acredita que o automóvel lhes permite ganhar tempo e que para 86%, este lhes é mesmo indispensável. Mas será sempre assim?

Até ao ano passado, eu estava com estes números 200%. Mas com o passar do tempo, descobri que viver sem carro não só é possível como tem sido pacífico. A pouco e pouco, os desafios do dia-a-dia foram-se resolvendo um a um. Fui mesmo descobrindo algumas vantagens, algumas delas inesperadas.

Mais Liberdade
Não sou diferente de ninguém: em férias, poder arrancar de automóvel a qualquer momento e sair por aí sem mais nem porquê, música bem alto e janelas abertas, sabe a liberdade. Agarro-me a ela como o pó se agarra ao carro até chegar a chuva.
Mas em Lisboa é diferente. Não ter carro, trouxe-me um surpreendente sentimento de leveza. De pertença a uma cidade que se tornou mais minha e pequena à medida que a fui cruzando a pé e de transportes.
Não me preocupo com trânsito, com estacionamento, com emel, com multas. Se tenho lugar, se não tenho. Simplesmente vou.

Menos Voltas
Outra coisa que acontecia frequentemente quando tinha carro, era achar que conseguia meter o Rossio na Betesga. Ia só dar um pulo ali. Apanhava qualquer coisa a caminho de casa. Já que ia, passava acolá e despachava um assunto urgente. Mas a verdade é que o pulo raramente era um pulo. Não é fácil contrariar isto. Mesmo agora e conhecendo esta minha tendência, quando ando com carro, dou mais vezes por mim a correr, a chegar atrasada ou a bufar no trânsito, arrependida.
Sem carro, sou obrigada a simplificar e descomplicar pulos e outros assuntos urgentes supérfluos.

Menos Consumo
E com menos voltas evitam-me alguns gastos. Os centros comerciais e grandes superfícies tornaram-se mais distantes. Tendo naturalmente a resolver as minhas compras online ou perto de casa. Além de me poupar tempo, o impacto na carteira é directo. O ter de programar a deslocação para determinada compra, leva a que me dê ao trabalho de verificar previamente o que tenho no frigorífico, despensa, gaveta, armário. A procurar alternativas mais simples. Se antes pensava 2 vezes antes de gastar, agora penso 3.

Menos Poluição
Esta é a consequência mais óbvia. Não foi procurada, admito, mas dá-me enorme satisfação. Quando fiquei sem o carro, lembro-me de pensar que comprar um carro era um péssimo negócio para mim, mas também para o ambiente. Descobri em mim uma resistência também nesse sentido que me surpreendeu. Um conflito. De um lado, o impacto negativo da exploração de combustíveis fósseis e do outro, a compra de um carro a gasolina, já que uma opção mais ecológica não estava ao meu alcance.

Mais Tempo
Às vezes, é infinitamente mais rápido ir de A a B de metro ou a pé, dependendo se estamos na hora de ponta, chove ou é difícil estacionar. Outras vezes, o percurso implica andar a pé ou esperar o autocarro e demora mais tempo do que indo de carro, sem dúvida. Mas mesmo neste segundo cenário, o tempo não é desperdiçado. Muitas vezes é um tempo em que respondo a um email, em que organizo o que vai ser o dia seguinte ou a semana. Em que começo a escrever um artigo, faço um telefonema e leio. Ou até nada disso e apenas deixo a cabeça desligar, que também precisa.

Mais Ar
O meu trabalho é bastante sedentário. 90% do tempo estou sentada à frente de um computador, num espaço simpático, mas fechado. Ora, se somar um de-casa-para-o-trabalho-e-do-trabalho-para-casa, enfiada num carro, a coisa agravava. Não que percorresse grandes distâncias, mas às vezes dava por mim a passar 1h30 no carro ao final da tarde. Faltava-me ar e os fins-de-semana não chegavam para o compensar. Sem carro, ando mais a pé. O corpo mexe-se e a cabeça areja. O corpo liga e a cabeça desliga. Há melhor?

Não ter carro tem sido uma escolha pouco consensual e recebo comentários de surpresa e até de preocupação. Mas talvez o mais curioso tenha sido o de um amigo que exclamou “que europeia!”. Eu, que nunca vivi fora de Portugal, ri-me, mas percebi o ponto. As cidades “mais europeias”, leia-se modernas e desenvolvidas, são aquelas que não dependem tanto do carro, que dispõem de uma boa rede de transportes, ciclovias e outras alternativas de partilha de carro, motas e bicicletas. Em Lisboa, há ainda muito por onde melhorar nesse sentido, mas, como diz a Rita, a direção é clara. É para aí que caminhamos e eu acrescento, ainda bem.

A verdade é que no último ano descobri, que sem carro vivo mais devagar, mais slow, com mais calma. Sem que com isso sinta que estou a roubar tempo a coisas importantes, pelo contrário. Não é perfeito e às vezes um carro faz mesmo falta, mas nada que não se tenha resolvido com uma boleia, empréstimo ou ocasional aluguer. Mas deixo os detalhes práticos para um próximo artigo.

E vocês? Vivem com carro? Sem carro? Bem, mal ou mais ou menos? Comentem e opinem!

Até já,
Filipa

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.
PARTILHAR Tweet about this on TwitterShare on FacebookPin on PinterestGoogle+Email to someone

7 Comments

  1. Que inspiração.

    Vivo em Braga, numa cidade onde já se viveu ” slower”. É pequena mas parece cada vez maior nas deslocações. Somos 4, com 2 crianças pequenas e deixa-me ansiosa pensar que posso ficar sem carro…mas “liberta” ao mesmo tempo. Viver o caminho para chegar aos lugares é importante e de carro só vemos o destino.

    Um beijinho.
    Raquel

  2. eu não tenho carro, nunca tive e nem sequer sei conduzir. transportes públicos fazem parte do meu dia-a-dia desde que me mudei pra Lisboa, há 13 anos atrás. ultimamente tenho me lamentado não saber conduzir. quando se tem horários a cumprir é complicado porque, tanto os autocarros como o metro, demoram imenso tempo.. o metro já foi muito melhor e por ter de esperar por um o triplo do tempo que esperava antes da crise desisti completamente de o usar como meio de transporte para vir trabalhar. outro problema do metro é não cobrir a cidade toda. por exemplo, para vir dos olivais até alcântara eu tinha de apanhar duas linhas de metro mais um autocarro e levava em torno de 90 minutos. não dá. portanto hoje em dia uso o comboio que, para mim, é o único meio de transporte que funciona, não atrasa, não está sempre lotado, não há pessoas com músicas aos altos berros e não se tem de enfrentar o caos do trânsito. eu sou uma grande defensora dos transportes públicos mas acho que lisboa está muito, muito longe de ter transportes públicos de qualidade como muitas grandes cidades europeias têm.

  3. Quando viemos para Barcelona, há 10 anos, trouxemos carro.
    Formatados pelos velhos costumes, levávamos 15 minutos até ao trabalho e 40 minutos para estacionar. Rapidamente percebemos que devíamos mudar algo. E mudámos!
    Agora, há quase 9 anos que nos movemos em transportes públicos (que aqui funcionam bem), de bicicleta, skate ou maioritariamente a pé.
    Trocámos um bocadinho de conforto por um dia-a-dia com mais qualidade e mais tempo livre, e confesso que não trocaria este estilo de vida por nenhum outro. Fico contente que em Lx haja cada vez mais alternativas e pessoas com ganas de fazer algo diferente. 😉

  4. Eu que já vivi em Lisboa e mudei-me para o Porto, foi o que mais falta senti – uma boa rede de transportes. Aqui, quando temos de sair do Porto cidade, onde não há cobertura de metro, não existe alternativa viável ao carro.
    Eu vivo a 20 km do sitio onde trabalho e em Lisboa seria impensável levar carro. Aqui se o fizesse, demoraria quase 3 horas a chegar… Por isso, enquanto trabalhar onde trabalho não posso abdicar do carro, infelizmente.
    Já ao fim de semana, vivo sem ele feliz e contente e vou a todo o lado a pé! 🙂 E concordo contigo, a liberdade e paz é surpreendente! Posso observar tudo sem medo de bater no carro da frente, não há filas, posso apanhar chuva (sim…eu adoro andar à chuva “à Porto”), não me vou chatear com ninguém em filas 🙂
    Muito já se evolui, mas infelizmente é um país a várias velocidades. Espero que a mudança se acelere, para bem do planeta e da nossa saúde (física e mental)!

  5. Excelente artigo, moro no centro do Porto e uso a bicileta como meio de transporte principal, o automóvel que tenho é em segunda mão com mais de 25 anos que so pego uma vez por mês. É claramente possivel viver sem automóvel e mesmo com filhos é só dar o primeiro passo.

  6. Sou da Parede e moro em Lisboa há 20 anos. Nunca usei o carro diariamente. Sempre andei a pé e de transportes, por um lado porque me oprime a sensação de não conseguir estacionar (é um dos meus pesadelos, andar e andar às voltas sem arranjar lugar, go figure!) por outro por consciência ecológica, assumo. Mas tenho a sorte de morar no centro de Lisboa. Somos uma família de 5 e andamos todos de transportes menos o meu marido que usa mota; o carro fica guardado para os fins-de-semana. Mas se qualquer dia morrer… se calhar não vai ser substituído!

  7. Tinha mota e carro. Quando o primeiro filho nasceu em 2008, troquei a mota pela bicicleta, para o levar à creche. Com o segundo filho em 2012, comprei um atrelado para a bicicleta. Entretanto separei-me e foi-se o carro há mais de 1 ano. Os meninos (agora 5 e 9) estão habituados desde pequenos a fazer deslocações em bicicleta e de transportes públicos. Além das deslocações diárias, nos fins-de-semana e férias também planeamos destinos com comboios e bicicletas. Ainda este Domingo fomos os 3 do Parque das Nações ao Teatro Armando Cortez em Carnide, com o mais velho a atravessar Lisboa toda na sua bicicleta e o mais novo ainda numa cadeirinha atrás (mas reclamou que queria ir na sua bicicleta quando saímos de casa).
    Não ter carro à disposição é o melhor incentivo para fazer coisas diferentes e descobrir uma maneira de viver mais sustentável e mais devagar. Demorámos uma hora em cada direção ao ritmo duma criança de 9 anos, mas fomos por parques e jardins e desfrutámos a viagem.
    Ter boas bicicletas com equipamento adequado em casa ajuda. Muitas pessoas usam bicicletas e acessórios muitos maus, por falta de cultura deste meio de transporte e não investem nesta mudança. Esquecem que para conduzir um carro tiveram de investir muito mais (meses a tirar a carta e aprender a conduzir, uma pequena fortuna todos os meses para sustentar o carro)

COMENTAR