UM ANO SEM CARRO · ADAPTAÇÕES DE UMA FAMÍLIA NA CIDADE


Este não é o artigo mais glamoroso, mas depois de vos contar o que aprendi em um ano sem carro, fiquei a pensar que seria útil partilhar como o gerimos na prática, pois é nestas miudezas que as teorias sobre mobilidade e qualidade de vida nas cidades, se concretizam.
Bem-vindos assim, ao nosso “como-uma-família-de-3-vive-um-ano-sem-carro-na-cidade”, um registo de como nos organizámos no ano lectivo passado. Para quem não se imagina a viver sem carro (como eu não imaginava), espero que descomplique algo que na verdade é mais simples do que à partida parece e por vezes até, mais vantajoso em orçamento e gestão doméstica.

Trabalho
Tenho a sorte de ter muitas vezes a boleia de uma colega que, no seu trajecto para o trabalho, passa a 500 metros de minha casa. Em alternativa, ando 15 min até à paragem e apanho o autocarro que pára à porta do meu emprego. No regresso, geralmente venho de transportes e a pé, conforme venho para casa, escola ou apanho as crianças numa actividade.

Escola
Os meus filhos fizeram o último ano lectivo na mesma escola e a 1 km de casa, pelo que, levei-os muitas vezes a pé, conseguindo conciliar a ida para a escola com a boleia para o trabalho. Temos também a sorte de ter crianças no prédio que andavam na mesma escola e com quem os meus filhos apanhavam boleia algumas vezes, sobretudo no 2º período. No último período lectivo, por iniciativa deles, quiseram ganhar asas e ir a pé sozinhos. As primeiras vezes ainda liguei para a escola a confirmar a chegada, mas aos poucos fui ganhando confiança.
À vinda, vinham geralmente a pé. Ia eu buscá-los ou contava com a Ana (a nossa ajuda em casa) ou ainda com a boleia dos vizinhos.

Actividades
Duas vezes por semana, a A. tinha conservatório por volta das 16h00. Em anos anteriores ia de eléctrico com a Ana ou de boleia com os avós. No último ano, fazendo contas à vida e com a A. mais crescida, percebemos que compensava substancialmente mandá-la de cabify. E, passo a publicidade, correu muito bem. Tinha apenas o cuidado de indicar ao condutor que verificasse que ela entrava, de facto, na escola e na maioria dos casos eles até tinham o cuidado de me ligar, assegurando que ela estava entregue. No outro dia tinha boleia com uma colega.
Para a ir buscar ia de metro. Num dos dias dávamos boleia à colega dela, o que implicava um desvio. Nesse dia não era prático regressar a casa de eléctrico e vínhamos sempre de cabify ou uber. No outro dia, durante o inverno, usávamos também estes serviços, para não chegarmos a casa tão de noite.
O V. tinha treino de futebol ao fim-de-semana, a uma distância maior e de menos transportes. Por vezes ia de boleia com um amigo, outras calhou eu ter carro e ocasionalmente chamávamos também um uber.

Fins-de-semana
O Inverno foi tranquilo, não saíamos tanto da cidade e andávamos sobretudo a pé. Noutras alturas, para voltas e alguns programas com família e amigos, tínhamos as suas boleias.
Contámos também algumas vezes com carros emprestados de amigos e família que se ausentavam ou que ao fim-de-semana não precisavam do seu carro.
Conto em dois ou três dedos, as situações em que me senti limitada num fim-de-semana por não ter carro.

Férias
No Natal, tivemos um carro emprestado para que pudéssemos dar os nossos passeios e arejar. Na Páscoa, fugimos. No Verão, aluguei um carro por 3 semanas. E, sempre que o destino o permitiu, andámos de comboio, o nosso meio de transporte preferido.

Em conclusão
Como terão reparado, referi em alguns casos a sorte que temos e algumas situações dependem dela, efectivamente. Como eu ter uma colega que mora perto ou uma amiga generosa que não usa assim tanto o seu carro. Noutras situações, aquilo que chamo sorte é, na verdade, resultado de escolhas. Como viver num bairro em que temos amigos por perto. Como os miúdos andarem numa escola próxima de casa e que, sendo pública, tem naturalmente um número elevado de crianças do bairro, da rua, do prédio.

Se voltaremos a ter carro, não sei. Não digo que não, pois há vantagens claro. Idealmente gostaria de poder ter um carro à porta de casa e usá-lo nos dias em que preciso realmente dele, alternando-o com outras formas de deslocação. Ou não, já não sei. De qualquer maneira o esforço que isso envolveria, neste momento, não faz sentido.

E para vocês? O que é que funciona?

Até já,
Filipa

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.

4 Comments

  1. Olá Filipa. Que bonito relato, eu na verdade tenho 30 anos, ainda sem carta, sofro muito do estigma de acharem “muito estranho”, eu não ter carro e não conduzir, às vezes não é fácil lidar com esse tipo de pressões. Muitas famílias, amigos, pensam que não é possível, que nada se concretize, quando não tens carro para te descolar. Acredito que com planeamento, e alguma simpatia tudo se faz. Espero ver muito mais gente a pensar desta forma, a aceitar, que não é sustentável, nem necessário todos termos um carro.
    Obrigada,
    C

  2. Olá Filipa, a nossa família tem um carro e uma mota, por isso parece estranho que eu me identifique com a tua situação. Mas na verdade, o dono da mota só está disponível para levar uma das filhas à escola (e só de vez em quando, ela também apanha boleias de uma vizinha). No regresso e fins-de-tarde sou sempre eu a ir buscá-la, a pé ou de transportes. É que apesar do carro estar à porta, eu trabalho na baixa, onde não tenho estacionamento e seria ridículo vir de carro em vez de fazer as duas ou três paragens de metro que preciso para lá chegar. Por isso na prática, o carro fica parado durante toda a semana. Para ir buscar a mais nova às vezes preciso de apanhar 3 cores do metro e fazer 15 minutos a pé. Faço. Não demoro mais de meia hora. Para chegar da escola a casa, vamos de autocarro ou a pé. Atividades são sempre perto de casa, ou só fazem quando são mais velhos e podem ir sozinhos. Todos os 3 têm passe e os mais velhos já são independentes, circulam de autocarro ou metro sem se perturbarem. Também tenho mytaxi para os regressos a casa de noite. Vejo muitas amigas presas aos carros, ao trânsito e às atividades dos filhos todos os fins de tarde e não queria isso para mim. Mas também sei a sorte que tenho de morar no centro da cidade e ter tantos transportes à porta que me levam para todo o lado.

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