SETE DIAS, SETE PRATOS · MARINA COSTA AMADO


A amizade da Nina foi um dos bons “presentes” que esta “coisa” da Internet me trouxe.

A Nina era uma assídua e querida seguidora do seismaisdois. Um dia a Nina e o Ricardo escolheram vir festejar o primeiro aniversário da sua filha em Portugal e, recebi deles um e-mail a perguntar por sítios bonitos para um piquenique. Mas, na verdade eu sabia que o tempo andava incerto e então convidei-os para um lanche pequeno e familiar, para festejar o aniversário da pequena Thereza. E assim foi. A verdade é que desde que entraram na nossa porta nesse dia até hoje ficámos com uma forte amizade com esta família. Mesmo a um oceano de distância.

Queridos leitores do Slower, esta semana no sete dias sete pratos, directamente do Brasil para vocês, a Marina Costa Amado:

Eu comecei a cozinhar justamente por acreditar na importância de uma refeição à mesa, em família, feita com afeto.
Ricardo sempre foi um tipo turista na cozinha. Suas “especialidades” não passam de ovos mexidos para brunchs de domingo e sanduíches de improviso com o que resta na geladeira.

De início, eu cozinhava o jantar para nós dois já dobrado, para levarmos nas marmitas do almoço no dia seguinte.
Então veio o Bento e a seguir a Thereza, e a dinâmica toda das refeições teve suas voltas nesses últimos anos. Agora que todos já comem tudo (ao menos teoricamente), temos uma nova rotina alimentar.

As famílias, em geral, costumam fazer o jantar em dois turnos: o das crianças por volta das 18h30 e o dos adultos depois que elas se deitam, pelas 21h. Mas como já disse, eu acho muito importante esse momento em família, em que acontecem conversas fantásticas e muitas vezes o caos, mas ainda assim em família. Assim sendo, fazemos aqui um único jantar em horário intermediário.

Eu gosto mesmo de cozinhar sozinha, com música de minha escolha e meus muitos pensamentos que desaparecem conforme amasso o pão, no entanto as crianças adoram ajudar e participar de algumas receitas. Eu acho muito rico esse contato despretensioso e rotineiro com o preparo dos alimentos que se transformam em momentos em família.

Amo as rotinas, mas sou péssima na disciplina de aplicá-las. Ainda assim, faço o meu melhor para que tenhamos refeições de qualidade e com variedade.

Aqui no Brasil, o prato mais comum é o arroz com feijão, uma carne e uma verdura ou legume, e de facto é a combinação favorita das crianças. Entretanto, costumo excluir a carne, já que não sou fã dela. Gosto também de oferecer de quando em quando sabores e comidas típicas de outros lugares, pra enriquecer o paladar e para que conheçam uma diversidade.

Aos domingos vamos à feira livre biológica que há perto de casa e compramos uma porção de legumes, ovos, frutas e outras coisas de mercearia como feijões, mel, etc. Na volta pra casa, já tento organizar as folhas pra não se estragarem e faço uma lista dos ingredientes que temos pra semana. Normalmente vou à internet e busco em blogs que gosto receitas pra termos alguma novidade na semana, mas a maioria das refeições são mesmo as básicas que já sabemos que terão sucesso à mesa.

Costumo anotar na lousa o que tenho de ingredientes, o que me falta e as receitas planeadas para a semana – não que eu sempre consiga seguir o plano, mas pelo menos já tenho uma sugestão, que me ajuda a não estar aflita e ansiosa tendo que pensar tudo no fim do dia, quando os ânimos já não estão à toda.

Há vezes que já cozinho em maior quantidade pra ter algumas refeições congeladas para semanas mais atribuladas, há semanas nas quais cozinho todos os dias, e dias em que cozinho já duas receitas de uma vez pra não ser preciso cozinhar na noite seguinte. Dançar conforme a música, este acaba sendo o lema da minha cozinha.

Temos aqui um descompasso quanto ao paladar: enquanto alguns gostam de comida com temperos fortes, outros gostam do simples e frugal. Uns adoram carne, outros preferem vegetais. Há noites que uns saem mais felizes que outros da refeição, mas vamos alternando e a contagem final é sempre positiva.

SEGUNDA-FEIRA · Massa ao molho de tomate com beterraba
Às segundas normalmente faço um prato que já teve um preparo no domingo, por isso tem que ser um que se conserve bem, como o caso desse molho maravilhoso da clássica Marcella Hazan. Eu tenho por hábito já usar mais um legume em ocasiões que se usaria um só, para enriquecer o prato, já que carne não costuma constar no cardápio da semana. Nesse caso, cozinho beterrabas no molho, depois faço purê delas e misturo. Costumo usar massa pronta de boa qualidade, integral e comprada a granel sempre que possível.

TERÇA-FEIRA · Arroz com Lentilha (cozinha árabe)
Este é um prato que une o gosto das crianças pelo arroz e leguminosas (feijão, lentilha, grão de bico), um prato típico de outro lugar com sabores não tão comuns e uma cozinha prática. Refogo a cebola com o cominho, que depois recebe o arroz integral e a lentilha para cozinharem ao mesmo tempo. Tempero mais com sal e canela. Essa receita  herdei da querida Ana, com quem aprendi muito sobre legumes e filhos. Acompanha uma salada de tomates e pepinos com azeite.

QUARTA-FEIRA · Strata de Espinafre 
Esse prato aproveita o pão amanhecido, é rico em proteínas por causa dos ovos e ainda aceita os legumes que se tiver à disposição. O espinafre é sucesso garantido aqui dessa maneira, por isso sigo a receita da Deb do SmittenKitchen que eu gosto muito.

QUINTA-FEIRA · Arroz integral com Feijão Azuki e Abóbora Japonesa
Já ao meio da semana, as crianças estão saudosas do tradicional arroz com feijão, mas faço essa versão inventada que usa o feijão azuki, famoso por ter requintes nutricionais. Adiciono uma lata de tomate pelado e purê de abóbora japonesa, pra mais uma vez enriquecer a refeição sem muito trabalho (se faço os legumes separados, terminam sempre debaixo da mesa, para alegria do nosso cão).

SEXTA-FEIRA · Frango empanado no forno 
Esse frango é um favorito da família. Receita da extinta revista Gourmet (com esse video de como preparar, que eu adoro!), um achado pra quem não é fã de fazer frituras mas adora o resultado crocante. Cobrir coxas e sobrecoxas de frango (escolho os biológicos, por todas as razões de sempre) com uma mistura de manteiga amolecida, páprica doce e sal. Cobrir com farinha de pão japonesa Panko, que é extremamente crocante, e assar até dourar. Sirvo com purê de batatas ou batatas assadas com alecrim e tomatinho.

SÁBADO · Torradas com Pasta de Abacate e Harissa verde
Em dias de preguiça na cozinha, recorro às torradas com algo nutritivo. Uso o pão quase perdido e ainda faço pouca bagunça na cozinha, pra aproveitar mais o tempo de descanso. Adoro as receitas da Fer Guimarães Rosa, e essa é uma das minhas favoritas.

DOMINGO · Pizza 
No dia em que já vou pra cozinha arranjar as folhas, organizar o menu da semana e adiantar alguma refeição pra segunda-feira, acabo por também preparar a pizza. Seguindo a tradição da Maria, que tanto me inspira, começamos a fazer as nossas próprias, e os recheios variam de acordo com o humor do dia, indo de legumes refogados ao tradicional queijo e tomates com manjericão.

Mas é claro que tem noites que o jantar não passa de pão com patê de atum, ou recorremos a casa dos avós para um descanso e uma noite de aconchego em família alargada!

Maria Cordoeiro
É psicóloga. Tem quatro filhos. Um marido. Dois cães. Gosta de dias tranquilos mas que não lhe fujam dos planos. Gosta de cozinhar, de ouvir música, de costurar, de se deitar tarde, de tricotar e de ir à praia. Gosta de fazer coisas em geral e de pessoas em particular. Ou vice-versa. Tem um blogue onde conta alguns pormenores do seu dia-a-dia e onde fala da sua procura de um equilíbrio que considera urgente: parar e aproveitar todos os momentos, em contacto com a Natureza e com os outros. Em 2017 escreve o livro Viver Devagar e inicia a sua colaboração com o Slower.
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