Os Sete dias Sete pratos desta semana são da Inês, aka My Tiny Green Kitchen. A Inês acredita, que cozinhar é uma forma de gostar dos outros e de nós próprios. E, na sua cozinha reflecte-se isso mesmo: um cuidado consigo em harmonia com o ambiente e respeito pela natureza. Ela acredita em trabalhar com a natureza e não contra ela, pois tudo que se fizer contra ela será difícil e terá consequências nefastas. E, pelo contrário, se estivermos em equilíbrio com a natureza (a nossa e a que nos envolve) aí tudo fluirá. Faz tanto sentido, não faz?
Na maior parte dos dias a minha cozinha conta com dois habitantes, o meu cão Gaspar e eu. Há excepções pois claro, quando tenho amigos, família, convidados para experimentarem algumas invenções da tiny green kitchen. Assim, sendo pequena (a cozinha), sinto-a como tendo imenso espaço, suficiente para cozinhar enquanto danço e olho para a janela a ver o rio.
Cozinhar é lugar de alegria, de criatividade não me coíbo de sujar imensa loiça por causa de mim. Há coisas que faço mesmo com o intuito de partilhar mas no geral trato-me com o mesmo carinho com que trataria qualquer um que venha partilhar uma refeição comigo.
Padeço da circunstância clássica de quem escreve receitas para os outros: nunca sigo uma. Também, dificilmente, planeio as refeições da semana. Vou fazendo ao sabor do que há no frigorífico. No entanto, quando vou às compras, procuro garantir que me é fácil criar refeições durante toda a semana.
A minha alimentação é vegetariana e neste momento, o único produto de origem animal que uso é o mel. Procuro comprá-lo de produtores pequenos e que respeitem o bem-estar das abelhas e o equilíbrio dos ecossistemas.
O que norteia a forma como cozinho é a procura de equilíbrio. Comigo e com aquilo em que acredito. E para isso tenho de estar em equilíbrio com o planeta também. Tenho de, em consciência, saber que estou a fazer o que é possível para viver sem causar sofrimento desnecessário aos outros e a mim própria.
Para isso em casa não utilizo alimentos processados. Procuro que as minhas compras privilegiem o biológico por, com as suas limitações, ser o que mais garantias dá de ser produzido em maior harmonia com o planeta e respeitando a sazonalidade e ciclos da natureza.
As minhas compras favoritas são as dos frescos. E para tal não há como ir ao mercado. É muito fácil encontrar-me aos sábados, antes das 9h, no mercado bio do Campo Pequeno. Compro em 3 ou 4 produtores que conheço e a quem faço perguntas sobre aquilo que estou a comprar. Isso, para mim, é fundamental. Conseguir fazer o reverso do percurso, saber de onde veio aquela curgete, aquele maracujá, aquela maçã aproxima-me do processo. Idealmente produziria com toda a alegria tudo aquilo que como, mas deste primeiro andar lisboeta não é possível. O mais próximo desse ideal é mesmo conseguir saber de viva voz de onde me vêm os legumes e a fruta.
Sempre que chego a casa organizo as minhas compras. Lavo tudo o que seja verduras e ponho em caixas de vidro forradas a tecido de algodão. Assim tenho sempre tudo prontinho a usar. Todas as noites verifico se tenho de demolhar alguma coisa para garantir que há sempre cereais integrais e leguminosas para o dia seguinte. Esta é a planificação que faço.
Quando é tempo de preparar uma refeição abro para o frigorífico vou retirando os ingredientes que me apetece, normalmente, respeitando a regra de ter sempre um cereal integral, uma leguminosa e muitas verduras. Coloco tudo em cima da bancada e é entre o momento de abrir o frigorífico e o olhar para a bancada que surge a inspiração. Mas como todas regras têm excepções, há dias em que antes de abrir o frigorífico já sei o que quero fazer e dias em que ando às voltas até perceber o que farei.
Tenho também sempre fruta em casa. Desde pequena que em minha casa fruta era essencial, sobretudo como sobremesa. Outra coisa que tento ter na minha cozinha é água filtrada ou, quando posso, água que recolho à nascente.
SEGUNDA-FEIRA · Chá
Sim, à primeira vista, chá não é refeição. No entanto é tão importante para a minha rotina e para o meu bem-estar que não poderia não incluir este momento aqui. E digo momento de propósito. Preparar o chá, tomar o chá é sem dúvida o meu slow moment favorito. Acordo muito cedo, tomo um copo de água e depois é tempo da prática de yoga. Depois da prática vem o momento do chá. Tal como quem começa a apreciar bom vinho, quando se prova bom chá é bem difícil voltar atrás. Procuro ter chá de qualidade em casa (nesta altura do ano essencialmente branco ou verde), respeito a temperatura de água recomendada e o tempos de infusão. Depois sento-me à janela se o dia estiver de sol. Apreciar o chá, a paisagem ajuda-me a sentir presente e conectada e isso vale ouro.
TERÇA-FEIRA · Papas de aveia e batata-doce
Gosto que a minha primeira refeição seja substancial. De há algum tempo para cá a opção favorita são as papas de aveia e batata-doce. Uma ou duas vezes por semana ligo o forno para assar legumes: batata-doce, beterraba e abóbora conforme a época. De noite deixo os flocos de aveia de molho e no dia seguinte cozinho juntando a polpa da batata-doce. Depois adiciono sementes de linhaça trituradas em casa, canela ou outras especiarias e por cima fruta fresca, frutos secos, sementes, etc.
QUARTA-FEIRA · Salada de agrião, rúcula, rabanete e abacate
Normalmente janto muito cedo. Percebi que à hora do lanche era quando tinha realmente fome e achei que mais valia jantar. Quando tenho mesmo muita fome e já sei que vou acabar a petiscar antes mesmo do jantar estar feito, opto por uma salada rápida. Os vegetais já estão arranjados por isso é só juntar tudo numa tigela, temperar e comer.
QUINTA-FEIRA · Quinoa com tempeh, legumes ao vapor e molho verde
Este é um exemplo do que acontece quando abro o frigorífico. Primeiro preparei uma salada com agrião, alface e rúcula temperada com azeite, vinagre balsâmico e zaatar. Depois grelhei o tempeh marinado, cozi ao vapor brócolos e espargos. Entretanto preparei o molho verde triturando espinafres, rama dos rabanetes, coentros, cebolinho, azeite, limão e levedura nutricional. A quinoa já estava pronta mas se tivesse de cozer no momento seria rápido também. Ou seja, esta refeição não demorou mais do que 15 minutos a preparar.
SEXTA-FEIRA · Frutos vermelhos com molho de chocolate
Quando me apetece um mimo doce rápido preparo um molho de chocolate misturando manteiga de amêndoa, cacau em pó, xarope de ácer, flor de sal e água. É perfeito quer com frutos vermelhos, quer com pêra ou maçã.
SÁBADO · Hummus com todos
Quase todas as semanas faço hummus com alguma variação. O último que fiz foi de lentilhas vermelhas (tecnicamente não será hummus porque não leva grão…) e muito tahini. Depois por cima sirvo um misto de verduras cruas, cenoura em tiras, beterraba assada, legumes cozidos ao vapor. Acompanho com um bom pãozinho de fermentação e lenta e é uma maravilha.
DOMINGO · Feijão com ervas aromáticas, arroz integral e vegetais
Esta é outra das refeições básicas cá de casa. Na frigideira coloco feijão cozido, alho ralado, sal, pimenta preta, paprika fumada, sumo de limão e cozinho um pouco. No fim junto ervas aromáticas frescas picadinhas. Acompanho com arroz integral e os vegetais verdinhos que nunca podem faltar.

É designer gráfica, alfacinha e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. É da sua vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, que nasce o Slower.






