Gostava de vos dizer que conheço a Eunice pessoalmente, mas tenho planos para mudar isso e fazer-lhe uma visita muito em breve. No entanto, tenho-a, e à sua Maria Granel, como referência pioneira no combate ao lixo e ao desperdício. Afinal, foi graças a ela que Lisboa passou a contar com a primeira mercearia biológica inteiramente livre de embalagens e também, que assisti à primeira palestra da Bea Johnson em Portugal sobre zero desperdício. Razões de sobra para a convidar a participar no Sete Dias Sete Pratos, um desafio que prontamente aceitou.
Queridos leitores, tenho o prazer de vos apresentar os sete pratos para sete dias da Eunice Maia.
Cá em casa adoramos comer. Pudéssemos nós, e a vida era uma mesa corrida, cheia de amigos, família, boa comida, temperada de histórias e de gargalhadas. Muitas das memórias mais bonitas que guardo aconteceram à volta da mesa e estão associadas a certos pratos ou alimentos: a sopa de feijão verde da minha mãe, a broa feita em forno de lenha pela minha avó, o pão que o meu pai trazia no final do dia de trabalho, os doces açorianos da minha sogra, os folares de uma amiga que é quase mãe. E um dos maiores tesouros que recebi foi a dádiva de poder copiar religiosamente, uma a uma, durante um verão em São Miguel, num caderninho meu, as receitas da mãe do meu marido. Pensar que estão ali gravadas décadas e décadas de história e de amor, comove-me profundamente. Para mim a comida é mesmo isso, uma forma de amar.
E depois há todo um ritual que, para nós, começa à sexta-feira com a chegada do cabaz com frescos bio e da estação da Quinta do Arneiro – acreditem que receber este cabaz mudou a nossa vida. Arruma-se tudo em sacos de pano e em frascos no frigorífico. No sábado, nova romaria, desta vez, ao mercado de produtores Agrobio ao lado de casa. Ter uma mercearia biológica a granel também facilita muito o processo.
A Maria Granel trouxe-nos muitas descobertas, novos sabores, muitas inspirações (aprendemos tantas receitas com os nossos queridos fregueses!) e o privilégio de podermos escolher os melhores ingredientes biológicos – muitos testados precisamente na nossa cozinha antes de os termos à venda.
Este roteiro semanal é por isso inspirado no nosso imaginário familiar, pautado pela preocupação, passada de geração em geração, de que “nada se perde, tudo transforma”. Ou não fosse a nossa missão, enquanto loja, a redução de desperdício e o consumo consciente – precisamente um reflexo dessa inspiração e do que temos aprendido nesta viagem incrível.
DOMINGO · Leite de amêndoas e Paté amêndoa e abacate
Dia de organizar e preparar a semana. Ligo o forno e procuro rentabilizá-lo ao máximo. Muitas das receitas que aqui apresento foram preparadas neste dia para optimizar os recursos e a energia. Tosto amêndoas, asso os legumes. Costumo assá-los com casca. Caso prefiram retirar, podem guardar (assim como os talos) num frasco para caldo.
E o jantar é frugal: torradas para aproveitar o pão mais duro, barradas com o paté e leite de amêndoa a acompanhar.
Preparo ainda o pequeno-almoço dos dias seguintes em frascos: 2 colheres de sopa de flocos de aveia, leite de amêndoa, canela. Ficam a dormir no frigorífico e na manhã seguinte, estão bem cremosos, no ponto.
Leite de amêndoas · Ingredientes
1 chávena de amêndoas torradas e demolhadas durante 8h
2 tâmaras
1 litro de água
Instruções
Escorrer as amêndoas. Num processador, triturar as amêndoas juntamente com 1 litro de água e adoçar com 2 tâmaras sem caroço. Ajustar a espessura conforme o gosto. Retirei e filtrei com a ajuda de um saco de pano, reservando os detritos para a receita seguinte.
Paté amêndoa e abacate
Comecei a fazer este paté como forma de aproveitar todos os detritos das amêndoas que gerava para fazer a bebida vegetal. É só descascar um abacate maduro, triturá-lo e juntar tudo, temperando a gosto.
SEGUNDA-FEIRA · Lasanha de abóbora com lentilhas, coco e especiarias
Chegamos quase sempre muito tarde a casa. O jantar é, invariavelmente, “fastfood” do bem: rápido, saboroso e saudável. Neste caso, foi só aquecer uma refeição preparada no forno no dia anterior.
Ingredientes
¼ de abóbora (uso as cascas para fazer caldo) – partir em fatias relativamente finas, para servirem de “placas” e fazerem de “andares”
1 chávena de lentilhas com coco e especiarias, uma das minhas misturas preferidas da Maria Granel
Instruções
Cozer as lentilhas durante 15 a 20 min e escorrer (eu guardo a água para juntar ao caldo). Num pirex, dispor intercaladamente a mistura das lentilhas e a abóbora. A ligação e a cremosidade é conferida por um molho à base de amêndoa, que faço usando o leite vegetal e engrossando-o com uma colher de sopa de farinha de araruta. Levar ao forno cerca de 30 min.



TERÇA-FEIRA · Legumes com casca no forno
Tão fácil. Tão bom! Batata doce, cebola, cenoura, beterraba. Parto verticalmente em fatias grosseiras. Tempero com sal, curcuma, gengibre, alecrim, tomilho. Vai ao forno lento e temperatura baixa durante 2 horas. E já está!
QUARTA-FEIRA · Salada de quinoa vermelha com legumes, amêndoas e tangerina
Com os restos dos legumes assados do dia anterior, faço uma salada.
Ingredientes
1 chávena de quinoa vermelha
Acelgas
2 tangerinas
Amêndoas
Instruções
Passo a quinoa vermelha por água fria numa rede fina, levo-a ao lume em água a ferver, coze durante cerca de 15 min. Escorro e passo por água fria. Salteio acelgas, com talo incluído cortado em pedaços. Incorporo os legumes que sobraram do jantar anterior, junto as tangerinas (guardo as cascas) e as acelgas, algumas amêndoas torradas. Tempero com azeite e sal. Está feito. Colorido, rápido, nutritivo.
Com as cascas das tangerinas, aromatizo a água.
QUINTA-FEIRA · Pequeno-almoço de aveia, beterraba e canela
Um pequeno-almoço de super-homem que é uma receita da minha nutricionista Ana Sofia Guerra.
Adoro o pequeno-almoço, é a minha refeição preferida. Sento-me em frente à janela, o sol nasce e espraia-se lentamente pelo rio. Respiro a calma e o silêncio da casa. E saboreio bem devagar.
Num liquidificador coloco 1 copo de leite vegetal, 2 colheres de sopa de aveia, metade de uma beterraba, sementes de linhaça, canela. Trituto e já está, ponto a servir numa taça.
SEXTA-FEIRA · Grão com acelgas salteagas em caril
Depois de ter deixado no dia anterior grão de bico de molho, retiro-o da água e cozo-o durante 45 min. com um bocadinho de alga Kombu. Depois de cozido, guardo a água que me vai ajudar a fazer uma delícia no dia seguinte. Junto um punhado de acelgas e salteio tudo, temperado com o melhor caril, o da Maria Granel – é maravilhoso! Coloco num prato e junto uns pedacinhos de tâmaras. Já está!
SÁBADO · Delícia de chocolate
Sábado doce, sábado bom. No final do dia de sábado abranda-se. Tempo para uma delícia de chocolate, aproveitando a água de cozedura do grão de bico. Fiquei com esta receita da Eunice Van Uden na cabeça, depois de ela a apresentar no último workshop das nas nossas “Quintas da Maria”, dedicado ao #desafiozero – ideias para reduzir o desperdício. E decidi aproveitar a ideia e fazer uma experiência. E correu bem!
Na véspera
Num processador, triturar uma chávena de amêndoas torradas e 8 tâmaras. Forrar uma tarteira ou outra forma a gosto e deixar no frigorífico
No dia · Ingredientes
Água da cozedura do grão (aquafaba) batida – cerca de 45 min. até ficar com a consistência de claras e castelo
1 punhado de avelãs torradas
2 colheres de sopa de cacau cru em pó
1 chávena com pepitas de chocolate negro 70%
1 colher de sopa de geleia de agave
Instruções
Em banho-maria, derrete-se as pepitas de chocolate com uma colher de sopa de geleia de agave. Junta-se este chocolate derretido lentamente à aquafaba e bate-se mais um bocadinho até estar tudo homogéneo. Leva-se ao frigorífico durante 30 min.
Montagem
Retira-se do frigorífico a base de amêndoa e tâmara, coloca-se por cima a “mousse” de chocolate e polvilha-se em cima com um picadinho de avelã e cacau cru. Volta ao frigorífico, fica no frio durante 2 a 3 horas. Desenformar e servir.
Espero que gostem! E, se fizerem alguma das receitas, partilhem os resultados. Estarei pela Maria Granel para receber a vossa visita.

É designer gráfica, alfacinha e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. É da sua vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, que nasce o Slower.





