SETE DIAS SETE PRATOS · AMÃEZONIA RITA PEREIRA


Acho que desde que arrancámos com esta rubrica, que andava à espera de ver uma cara nos vossos pratos. Graças à Rita, esse dia chegou. A Rita é ilustradora, designer, mãe, vegetariano-piscívora e metade do essencial Amãezonia. É que só no Amãezónia encontramos dicas amadoras para sobreviver na selva da maternidade e nos passam a mão na cabeça quando em nós despontam (muito justificadamente) os mais bárbaros instintos assassinos.
Quando a selva lhe dá uma folga, a Rita gosta de patinar, de fazer yoga de vez em quando, de beber café (porque precisa muito), de usar trança no cabelo, de música rock e blues, de ler, de ecologia e de tiramisú. Também gosta de plantas.
Queridos leitores, convosco os sete dias sete pratos da Rita.


Não sou uma pessoa com rotinas muito rigorosas no que diz respeito a refeições e como amãezónia, há uma palavra essencial no meu vocabulário gastronómico: improviso. Creio que isto diz logo muita coisa sobre mim. Cozinhamos com o que há e por vezes o resultado pode ser muito:
a) interessante
b) amãezónico
c) exótico (para ser simpática)

No entanto há três ou quatro regras que seguimos cá em casa:
Regra nº 1 – Não se come carne. Não como carne desde 1999 mas não sou vegetariana. Como peixe, especialmente fora de casa. Em casa quase todas as refeições são vegetarianas. Cada vez mais.
Regra nº 2 – Os legumes e as frutas compram-se sem saco de plástico, salvo raras excepções. Usamos sacos de pano e de rede para ir às compras e compramos a granel os frutos secos.
Regra nº 3 – Sopa é conforto e significa regresso a casa. É uma constante no menu.
Regra nº 4 – Desenrasca-te, tu é que escolheste esta vida.

Uma vez que comemos essencialmente pratos vegetarianos tem de haver sempre legumes e fruta em casa. Não sou adepta da comida congelada e tento cozinhar na hora tanto quanto possível. Nas estações frias há sempre sopa e tem sempre leguminosas: feijão, grão ou lentilhas. No início do Verão abandonamos um bocadinho mas assim que farejamos o Outono voltamos à carga.

Ser amãezónia até na cozinha
O apetite para cozinhar varia conforme os dias, que não são todos iguais. Já houve dias em que estava tão cansada que comi uma lata de sardinhas com uma salada de tomate. Sim, só uma lata de sardinhas e um tomate. Uma receita do género “mexe-te o mínimo que puderes”.
Depois há os dias em que cozinho durante 3 horas, ponho música muito alto e canto enquanto corto os ingredientes (e os dedos) ao ritmo mais profissional que consigo. Deixo-vos um exemplo de semana boa.

Nota super importante
Se quiserem ter uma ideia de semana má pensem em arroz com ervilhas e atum, sopa e ovo estrelado, tosta de queijo e tomate, essas coisas que toda a gente inventa quando está em desespero. Como amãezónia assumo que me farto de almoçar iogurte com granola e uma peça de fruta. Aqui vai:

SEGUNDA-FEIRA · Bowl de feijão preto e ovo escalfado
Invento muito na cozinha e esta taça nasceu de uma fusão de uma receita que vi na internet com experiências gastronómicas na Indonésia. Praticamente transferi a salada que já fazia no prato para uma taça e coloquei um ovo escalfado por cima. É excelente para dias muito quentes porque praticamente não envolve fogão e além disso o resultado é fresco.
Ingredientes base para a salada: feijão preto cozido, pimento, pepino, tomate, abacate (não uso sempre, desta vez substituí pelo ovo escalfado e às vezes uso ovo cozido), salsa. Temperar com azeite, sal e o resto fica ao critério da imaginação, sementes incluídas!

TERÇA-FEIRA · Legumes no forno com bulgur e Bolo simples de iogurte com maçã e sementes de papoila
Faço muitas vezes este prato quando estou sozinha com a minha filha, porque posso deixar um tabuleiro sozinho no forno sem ter de ficar a vigiar e assim posso dar alguns minutos de atenção à pequena (ou um banho, vá). Geralmente são os legumes que há nesse dia, temperados dentro de um tabuleiro. Faço uma base de cebola, azeite e louro e depois alinho os legumes por cima. Rego com vinho e tempero com sal e pimenta. Ponho ervas frescas se as houver. Desta vez acompanhámos com bulgur, que também tinha azeitonas e raspa de cenoura. Os legumes que mais gosto de usar neste prato são: abóbora, batata doce, cogumelos, pimento, courgette, tomate cherry e às vezes bróculos. Também beterraba, mas é mais raro.

Neste dia tivemos duas visitas, uma pessoa adulta e uma criança, por isso ainda fiz um bolo super rápido de iogurte com maçã e sementes de papoila. Devorámos tudo depois do jantar e não sobrou nada para o pequeno-almoço do dia seguinte;

QUARTA-FEIRA · Risotto de salmão fumado
Este prato resultou do meu enfado do risotto de cogumelos. Fazíamos sempre o mesmo e sentia que precisava de variar. Um dia testei com salmão fumado e apesar de ser raro cozinhar peixe, de vez em quando quebramos a monotonia com este prato de conforto (chamemos-lhe assim). Leva queijo parmesão e alguma manteiga, gordura que não uso em praticamente nada, portanto é bastante mais pesado do que os outros pratos que costumo confeccionar.
Não uso receita e faço tudo a olho. Preparo um caldo com alguns legumes e coloco também a casca do queijo parmesão. Faço o risotto da forma tradicional, adiciono o salmão cortado aos bocadinhos e vou adicionando o caldo sempre quente enquanto mexo, até estar no ponto. Gosto de servir polvilhado com cebolinho.
Ingredientes necessários: arroz arbóreo, cebola, vinho branco, queijo parmesão e manteiga. Salmão fumado (uso duas embalagens) e cebolinho fresco; Como invento muito às vezes tempero com funcho em pó, além do sal e da pimenta.

QUINTA-FEIRA · Caril de legumes
Adoro caril. Faço de legumes e de gambas mas vou apostar no vegetariano. Uma vez mais uso os legumes que há no frigorífico mas há duas ou três coisas que não podem faltar para ficar excelente: caril, leite de côco, côco ralado, grão, sultanas e coentros.
Começo com um refogado, junto o leite de côco, o caril e côco ralado e engrosso o molho com uma colher pequena de farinha maisena. Coloco os legumes a gosto, o grão e tempero. Se a miúda não estiver em casa ponho malagueta, se estiver connosco só colocamos o picante no prato. Acompanho sempre com arroz branco. Para servir coloco os legumes em cima do arroz e salpico com sultanas, côco ralado e coentros.

SEXTA-FEIRA · Cuscus de espelta com atum e mozarella fresca
Sempre que tenho os minutos contados ou pouca vontade de cozinhar o cuscus é o meu melhor aliado. Porque é a base perfeita e não precisa de ser cozinhado no fogão. Depois de feito é só juntar o que houver em casa. Compro sempre o cuscus de espelta. Alguém da Índia explicou a uma amiga como fazer o cuscus e eu aproveitei a técnica, que resulta muito bem para os cuscus ficarem secos e soltos. Não quero dizer que seja a única forma de o fazer mas para mim funciona:
– Colocar numa taça uma medida de cuscus e uma medida de água quente;
– Tapar a taça com um pano e pôr um prato por cima;
– Esperar uns 3 minutos e depois regar com azeite e sumo de limão;
– Com um garfo e em movimentos suaves soltar o cuscus (que fica com um aspecto prensado).

Depois deste processo, que demora apenas uns cinco minutos, começo a juntar o que me apetece. A lista é longa e é possível fazer diferentes combinações, sugiro duas:
– Atum, ovo cozido, tomate cherry, azeitonas, cebola, feijão frade, salsa, sementes de girassol.
– Mozarella fresca, tomate cherry, abacate, espinafres, amêndoas torradas, sementes de chia.

Este é um prato para soltar a criatividade na cozinha e tem a vantagem de não demorar nada, por isso acho que deve ser dos mais versáteis que faço e recorro a ele não só no Inverno, com ingredientes mais quentinhos, como no Verão com ingredientes mais frescos. A minha filha é um bom garfo e raramente implica com a comida, mas sempre que faço este prato ela reclama. Ainda assim vou continuar a insistir.

SÁBADO · Ervilhas com ovos escalfados e chouriço vegetariano

Estava a tentar evitar este prato mas não vai dar. A razão (pela qual tentava evitá-lo) é que o chouriço vegetariano não deve ser das melhores coisas, mas cá em casa de vez em quando acontece, confesso. Porque é irresistível. Sabem como é: refogado, molho de tomate (quanto mais caseiro, melhor), folha de louro, muitas ervilhas, pedacinhos de chouriço vegetariano e por fim os ovos a escalfar no meio de todos os outros ingredientes. Duas palavras (ainda por cima em estrangeiro quando falo de um prato tão português): guilty pleasure.

DOMINGO · Bolo salgado de courgette e salmão fumado

Descobri esta receita no livro Velocidade Colher (da autoria de Susana Gomes, dona do blog nosoup-foryou.blogspot.com/). A receita original é com funcho e salmão fumado mas no fim a autora sugere a hipótese de substituir salmão por atum ou funcho por courgette, foi o que fiz e a versão cá de casa é sempre courgette com salmão fumado.

Começo por misturar 200gr de farinha, 1 colher de chá de fermento e outra de bicarbonato de sódio com uma pitada de sal e outra de pimenta preta numa taça (o ideal é peneirar).

Corto em pedaços 200gr de courgette e reservo.

Num terceiro recipiente bato 3 ovos com 1 iogurte natural, 90gr de azeite e sumo de 1 laranja (a receita sugere 80gr de sumo).

Envolvo a farinha com a mistura de ovos e iogurte e em seguida junto a courgette em pedaços + 100gr de salmão fumado + 50gr de azeitonas pretas sem caroço.

Coloco esta massa numa forma forrada com papel vegetal ( a receita original sugere uma forma de bolo inglês mas como não tenho faço noutra forma rectangular) e coloco no forno previamente aquecido a 180ºC durante 45 minutos. Mas o ideal é ir testando com um palito para ver se está cozido antes de retirar. Normalmente sirvo isto como uma refeição leve de fim de tarde, funciona mais ou menos como uma fatia de bôla e é perfeita para Domingos preguiçosos. Se estiver calor sabe bem acompanhado com uma cerveja fresca (para os graúdos), ou um sumo de ananás e banana feito em três tempos na liquidificadora (para os miúdos).

É designer gráfica, alfacinha e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. É da sua vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, que nasce o Slower.

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