Conheci a Sara no ano passado, quando fui levada por uma amiga a uma das suas aulas de Yoga ao ar livre. Isso mesmo, yoga na relva e à beira rio, na altura. De lá para cá, um pouco por toda a cidade e aos domingos no Jardim da Estrela. Soa bem não soa? Além de algumas aulas que fiz com ela, fui cativada pela sua escrita sumarenta. Sempre com graça, sempre certeira. Que me explicava por A+B que há dias em que o melhor é não desafiar os elementos. E outros para pintar a manta e fazer o pino.
É que, além de professora de Yoga, a Sara tem também uma energia e humor contagiantes e é escritora-publicitária-estratega. Ela vai contar-vos já já, como isto se conjuga, como organiza a sua semana, os seus sete pratos para sete dias e tudo o resto. Ora leiam.
Os meus dias são cheios. Acordar cedo para praticar Yoga e meditar, preparar um mega pequeno-almoço que não envergonha nenhum sapo, começar a ler e-mails ainda em casa e quase queimar o céu da boca com o café a ferver. Já com o batom meio posto, sair para o co-work – sempre mais tarde que o esperado – e encaixar sei-lá-mais-quantas-coisas aí no meio, incluindo as aulas de Yoga, os posts da Pause and Flow e respirar bem. Sim, respirar. Lá em casa, e lá na firma, somos só uma. Isso facilita muita coisa e complica tanta outra: ir às compras, acartar o almoço na mala junto do computador, levar snacks, preparar as refeições e, claro, comê-las com gosto e carinho, nunca como se fosse um castigo. Vou contar-vos um segredo. O nosso corpo sente, não apenas o que pomos lá dentro mas, como o pomos, onde, a que horas e com que emoções. Por isso, sozinho ou acompanhado, recomendo sempre uma dose extra de amor nas refeições, por mais simples ou elaboradas que sejam.
Falemos de coisas boas, então. Embora seja publicitária há mais de 10 anos, muitos associam-me à “menina do Yoga”, com todos e mais um clichés que isso trás. Sim, a minha alimentação é, como dizem os estrangeiros – e os ex-emigras como eu – plant-based, mas sempre que posso, me apetece ou não tenho opção, como um peixinho (cavala em lata incluída), ovos e lacticínios (kefir, por favor). Para isso, tento comprar ingredientes locais, da estação e em bancas “do bem”, isto é, pequenos produtores nacionais. Tal como a minha querida Dona Alice, o meu anjinho do mercado da Ribeira.

Bio? Ovos sim (matinados), bananas não. Peixe sustentável? Só se os pais da dourada souberem reciclar. Pingo Doce e Lidl? Claro. Suplementos? Espirulina, minha amiga deliciosa, mas nada como incluir frutos secos, sementes, gengibre, canela, todas as cores e todos os verdes. Muitos. Quantidades ridículas, diria a minha avó se visse.
Fiquem com as minhas modestas sugestões, inspiradas nas cores das estações e estórias reais do dia-a-dia. Ideais para quem gosta de comer colorido, bonito e nutritivo.
DOMINGO – o verdadeiro primeiro dia da semana · Travessas de coisas boas
Já que vamos ligar o forno, vamos maximiza-lo, verdade? Travessa grande com todos os legumes da estação cortados aos bocados, sal e pimenta q.b e óleo de coco ou azeite virgem extra. Favoritos: beterraba, abóbora, batata doce com batata, courgette, cenoura, milho, brócolos, cogumelos inteiros. Travessas mais pequenas para tostar amêndoas e mix de sementes (sésamo, abóbora, girassol). Travessinha com tempeh cortado aos cubos, grãos de soja fermentados. Delicioso. Cortar tudo em cubos ou fatias e tapar com papel prata para ficar ainda mais delicioso. Tempos diferentes, entre 15 a 40 minutos, ir olhando. Depois é só escolher os legumes favoritos, por exemplo, brócolos e cogumelos. Colocar numa taça por cima de espinafres temperados com vinagre balsâmico, azeite e orégãos, juntar umas colheres de cereais (arroz integral, selvagem, quinoa, búlgaro, couscous) e ovos escalfados. Terminar com as sementes e ¼ de maçã em lascas finas.
SEGUNDA-FEIRA · Sopa consistente com torradas deliciosas
Sopa, feita ao domingo ao som de Nirvana e ao calor do forno, é fundamental lá em casa. A base é sempre a mesma: 4 cenouras grandes, 1 batata doce pequena, 1 courgette, 1 nabo médio e outra coisa qualquer, geralmente mais proteica como grão, feijão ou lentilhas. Salva-me sempre, especialmente às segundas depois de dar aulas de Yoga dinâmico. Aqueço duas conchas grandes e acrescento rúcula, sementes e até peixe em lata ou tempeh, sim. Acompanho com torradas de pão escuro, geralmente de centeio (adoro o da Tartine), com ovo cozido mole, carpaccio de beterraba com nozes, abacate esmagado cheio de limão, ou, esperem, mel, banana e canela.
TERÇA-FEIRA · Saladona arco-irís de quinoa
Uma excelente combinação para a marmita de almoço é esta salada. As saladas querem-se grandes, com diferentes texturas e sabores. Numa base de rúcula, acrescentam-se umas colheres de quinoa, milho, abóbora e a beterraba. Juntar o tempeh e temperar a gosto: mel, limão, mostarda e azeite fazem uma boa combinação. Terminar com sementes, e, quiçás uns cubinhos de queijo feta. Não esquecer os orégãos. P.S: Terça-feira é dia de mercado, altura para comprar mais legumes e fruta.
QUARTA-FEIRA · Super-poderoso batido verde com todos
Este é meu pequeno-almoço do costume, o que substituiu o de iogurte liquido e cereais processados há uns anos. Se não estão acostumados a verdes de manhã, vão com calma. Como em tudo, testando, vendo e aprendendo. Esta receita é simples e económica. 1 banana madura, ½ maçã com casca, 1 copo de espinafres, 1 fatia de gengibre fresco, ½ colher de café de canela e 1 colher de café de espirulina (opcional). Colocar tudo no liquidificador juntando 1/3 de copo de leite vegetal. Colocar na taça e decorar: granola caseira, kefir a olho, pólen de abelhas (o salvador da febre dos fenos), sementes de linhaça moídas, aveia demolhada durante a noite, morangos, gojis. A criatividade manda.
QUINTA-FEIRA · Arroz à preguiçosa
Dia da preguiça. Olhar para o frigorífico e ver se ainda há alguma coisa. No entretanto, colocar rúcula e espinafres numa taça – verdade, sempre que posso, como em taças bonitas – juntar arroz selvagem e uma lata de atum em azeite virgem extra, previamente aquecidos na frigideira com ervinhas e carinho. Juntar tomate cereja cortado ao meio, ervilhas acabadas de cozer (usar a água para regar as plantas para não desperdiçar) e temperar a gosto, com os suspeitos do costume e pimenta preta.
SEXTA-FEIRA · Prato do dia ou o do costume
Sexta é dia de ir comer fora, pelo menos ao almoço ou jantar. Como trabalho a partir do Cais-do-Sodré, ao almoço a minha escolha vai muitas vezes para as tartes do Água no Bico, cheias de legumes frescos (há uma vegan, uma sem glúten com ovos e uma ´normal´, com carne ou peixe), todas acompanhadas de mega salada com um bom equilíbrio entre crus e cozinhados. Tudo com sumo do dia e café por apenas 6,5 euros. Não digam a ninguém. Para jantar, qualquer coisa que não costume ter em casa: sushi, pokés e pizza estão no top 3.
SÁBADO · Panquecas sem glúten nem açúcar mas cheias de sabor
Sábado (e domingo) é dia de brunch-all-day-long. Para além dos clássicos batidos e torradas com ovos que, honestamente já não se aguenta, até porque os como durante toda a semana, nada como panquecas. Simples e feias, que o empratamento tem demasiada importância nos dias de hoje. Para cada dose colocar 1 banana super madura (nada de deitar fora as partes pretas), 4 colheres de flocos de aveia triturados (ou farinha de aveia), 1 ovo (ou 1 colher de linhaça moída hidratada para opção vegan) e ½ chávena de leite vegetal, por exemplo de arroz ou aveia. Misturar tudo com o garfo até ficar uma pasta. Fazer 1 concha de cada vez na frigideira bem quente, com 1 colher de óleo de coco. Atenção que na primeira vez vai colar. Colocar mais fruta por cima e manteiga de amendoim ou mel para disfarçar. Ah e canela. Sempre.
Tenham uma boa semana, bom apetite e melhor namaste.
X Sara

É designer gráfica, alfacinha e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. É da sua vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, que nasce o Slower.






