A convidada deste Sete Dias Sete Pratos é prata da casa. A Rita é alfacinha, arquitecta, urbanista e tem pedal como poucas. Já vos falou antes de escolhas e mudanças e já conheceram o seu dia-a-dia de um lado para o outro. Fiquem agora com os seus pratos para sete dias.
Cozinhar para uma pessoa ou duas é certamente uma tarefa mais simples e que exige menos planeamento do que alimentar uma família de pais e filhos. Mas não deixa de ser coisa que requer alguma inspiração, para não se cair na tentação (fácil) de se passar a vida a jantar o mesmo.
Os sete pratos que se seguem não acontecem numa mesma semana. Pelo meio há dias para jantar fora, dias em que se recebe amigos em casa e dias em que, simplesmente, se repete a refeição da véspera. Certo é haver sempre sopa (sem batata) em casa (uma por semana, repetida até se dar cabo dela) e um quadrado de chocolate preto a rematar a noite.
Vale a pena dizer-vos que tento cortar nos hidratos de carbono (em particular pão, massas, batata e arroz, para manter a linha; ou não acentuar a curva), corto nas carnes (a sua produção é uma das principais causas dos Gases com Efeito Estufa, GEE’s) e evito embalagens de plástico quando posso. Nada disto é seguido à risca, como adiante verão. “Se eu tentar alcançar a lua, posso não chegar lá, mas com os pés em terra não fico” li um dia. E é esse o meu lema.
Vou ao supermercado tão pouco quanto possível. Compro o que preciso na mercearia a caminho de casa e atiro os legumes e outras compras para dentro da carteira ou do alforge da bicicleta.
Feijão frade com atum
Este dispensa apresentações, certo? Feijão frade, atum em lata (de boa qualidade), salsa, ovo cozido; azeite, vinagre, sal e pimenta. Está feito.
SEGUNDA-FEIRA · Salsichas com couve lombarda
Esta é uma daquelas refeições que faço em dose familiar e que ponho em caixas no frigorífico. Faz-se um refogado com cebola e alho, enrolam-se as salsichas na couve lombarda e coloca-se por cima do refugado, na panela. Põem-se umas nozes de manteiga e alguma polpa de tomate entre as camadas; vai-se pondo um pouco de água e controla-se a cozedura em lume branco. Não acompanho com nada (a regra da carne já está quebrada, mantenho firme a regra de não comer arroz).
TERÇA-FEIRA · Caril de legumes
Quase tudo o que cozinho, é inventado tendo por base alguma coisa que comi em algum lado. Neste caso é uma tentativa (aquém) de imitar um caril maravilhoso do restaurante Psi. Faço um refogado e acrescento tomate “verdadeiro”. Junto courgettes, couve-pak-choi, bróculos normais ou romanescos e abóbora (estes dois previamente cozidos). Acrescento caril em frasco “Patak’s” de qualquer tipo, hortelã ou coentros, leite de côco e/ou iogurte grego (o que houver). No fim ponho amendoins ou cajus.
Acompanho com “arroz de couve-flor”, invenção recente da minha amiga Catarina, já deturpada por mim. Pica-se a couve-flor, junta-se especiarias e hortelã (ou coentros), salpica-se com água e um fio de azeite. Vai ao micro-ondas 5 a 10 minutos et voilá! Fica óptimo e cumpre a tarefa de acolher o molho do caril como se quer.
QUARTA-FEIRA · Os peitinhos da Maria
Esta é uma refeição que faço por vezes quando tenho amigos em casa. É boa, barata e razoavelmente sustentável (a produção de frango tem muito menos impacto do que a produção de carne vermelha; sobre isso já escrevi aqui). A receita, feita com peitos de frango, foi inventada por uma amiga dos meus pais, que para sempre lhe ficou (carinhosamente) associada.
Fritam-se os peitos de frango num fio de azeite, com sal, pimenta e sementes de mostarda (se não tiverem, ponham mostarda vulgar). Serve isto apenas para dar um ar tostado à carne, nada mais.
Numa panela põe-se um alho-francês ou dois. Um pouco de azeite e os peitinhos já tostados. Junta-se um fio de água, para não colar de início. Depois o próprio alho-francês liberta a água necessária ao estufado. Costumo deixar cozinhar bastante tempo, até o frango estar desfiado (mas não é essencial chegar a tanto). No fim põe-se um pacote de natas. Acompanha-se com batatinha nova, assada no forno com sal, azeite e tomilho ou alecrim. Lá se vai a regra dos hidratos de carbono; um dia não são dias.
QUINTA-FEIRA · Beringela recheada com tomate e mozarela
O título diz quase tudo. Corto uma beringela a meio, com uma faca retiro o interior (sem furar a casca), corto em bocados o miolo da beringela. Faço um refogado, junto o tomate e a beringela cortada aos bocados. Tempero com sal e pimenta e umas especiarias marroquinas (açafrão também serve). Quando está cozido, tiro do lume e junto uma mozarela cortada em cubos. Encho as beringelas com esse recheio e vai ao forno (algum tempo, para que a casca amoleça – se isso acontecer, come-se a casca; se estiverem com pressa, não se come a casca mas é bom na mesma). Acompanho com quinoa (em alternativa ao cuscus).
SEXTA-FEIRA · Salada de Quinoa
A quinoa é saudável, um super-alimento e, apesar de vir de longe, é razoavelmente sustentável (ou prefiro acreditar que sim). É por isso algo que como muitas vezes, quente ou fria. Na versão salada, junto abacate, tomate, hortelã, queijo mozarela, sementes de girassol tostadas ou cajus e tempero com azeite e limão.
SÁBADO · Salmão com couve pak-choi
Não sou muito de peixe, mas este é um dos poucos que faço com regularidade. Ponho os lombos de salmão no forno só com sal, pimenta e muito limão escorrido por cima. Vai ao forno (pouco tempo, para o salmão não secar). Numa frigideira em lume brando ponho as folhas de couve pak-choi (que faz as minhas delícias) com sal, um fio de azeite e a água que vem agarrada às folhas mal escorridas. Tiro-as do lume quando ainda estão mal cozidas.
DOMINGO · Esparguete de quinoa
Não se iludam, apesar de ser de quinoa não deixa de ser esparguete. Ponho a cozer numa panela com um monte de espinafres (a contrastar com uma miserável quantidade de massa). 3 minutos depois tiro do lume, escorro a água, ponho uma colherada valente de queijo Philadélfia e espalho sementes de cânhamo ou de girassol, tostadas – que tenho habitualmente guardadas num frasco, à mão-de-semear.

É designer gráfica, alfacinha e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. É da sua vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, que nasce o Slower.





