
Queridos leitores, o sete dias sete pratos desta semana traz-nos uma família numerosa onde a mesa estica sempre para um, dois, ou três. Nesta casa cozinha-se com fartura, economia e improviso, adjectivos que nem sempre casam bem juntos e muito temos a aprender com os Ribeiro Ferreira. Espero que gostem tanto como eu!
Cá em casa somos 6, quase todos adultos (5 de origem e uma sobrinha alentejana que veio para a Universidade) mas as refeições que fazemos costumam ser para 12 ou mais porque há cestos, marmitas, há quem trabalhe em casa, costuma haver convidados e há gente esfomeada que vem almoçar e traz amigos. Por isso, apesar de ser fã desta rubrica do slower, queixei-me à Filipa que gostava de ver mais famílias grandes a partilhar o que comem, porque cá em casa come-se muito! Pouco subtilmente ofereci-me para partilhar o nosso dia-a-dia e aqui estamos.
Gostamos muito de viajar (e queremos ir sempre todos!), mas como não temos uma mina de ouro debaixo da cama, temos que fazer contas e esticar muito as refeições, porque estamos sempre a planear e a pôr dinheiro de lado para o próximo destino.
Normalmente compramos ingredientes e não produtos já feitos (pão, bolachas, granola, iogurtes, etc). Mas como estou longe de ser a super mulher, tenho mais do que um trabalho e facilmente me distraio, esta teimosia de não comprar feito não ajuda em nada; os nossos filhos queixam-se de nunca haver nada para comer cá em casa! Em minha defesa, estão todos ensinados desde cedo a fazer básicos como bolos, bolachas, panquecas, arroz ou massa, etc.

Costuma haver ingredientes na despensa ou dinheiro num frasco para irem comprar à mercearia. Pode ou não ter acontecido termos partido num fim-de-semana sem deixar nem um nem outro. Contra todas as probabilidades, eles sobreviveram.

Além disso, há sempre sopa, feita à 3ª feira com os legumes da Fruta Feia. Também temos sempre salada, muitas vezes tudo em separado porque há sempre alguém que não gosta de pepino, outro de beterraba, outro de couve roxa… E raramente temos sobremesa, a não ser em dias de festa.

De resto, não há regras e sou incapaz de seguir uma receita (apesar de ser colecionadora de livros de cozinha ou não fosse neta da minha avó…). Não sou nada organizada e é raro saber de manhã o que vou fazer para o jantar.
SEGUNDA-FEIRA · Beringelas à parmesã
A receita original é com fatias de beringela panadas mas uma amiga italiana ensinou-me a fazer com beringela grelhada e fica muito melhor. É só cortar a beringela às fatias o mais finas possível e grelhá-las numa frigideira às ondas. Parece que demora muito tempo mas cabem imensas fatias redondas de beringela em cada frigideira (tenho duas) e elas grelham num instante. Depois é só alternar num pyrex com molho de tomate e fatias de mozarela e levar ao forno. No verão fica óptimo em salada, ou seja, juntando a beringela grelhada ao tomate crú e à mozarela. Se sobrar beringela grelhada basta pôr num frasco e cobrir com azeite, faz um óptimo aperitivo ou recheio para sanduíches.
TERÇA-FEIRA · Ovos verdes (ou amarelos) com atum
Cozemos os ovos e cortamos ao meio depois de descascados. A gema mistura-se com maionese, atum e salsa picada (se houver!) e depois recheiam-se os ovos com esta mistura. Também podemos juntar picles picados, e acompanhamos com salada russa.
QUARTA-FEIRA · Salada com bife
Dois bifes de vaca grelhados e cortados em tiras finas (bem temperados com sal, pimenta e mostarda) são deitados em cima de uma salada de alface, couve roxa e cenoura ralada com sementes de sésamo ou girassol. Acompanhar com um cestinho de pão para não assustar os adolescentes que comem como homens adultos. E reforçar a dose de sopa!

QUINTA-FEIRA · Salada Caprese com fusilli
Fiz Erasmus em Florença há milhares de anos, mas como foi lá que comecei a cozinhar todos os dias, acabei por interiorizar para sempre alguns fundamentos da cozinha italiana: simples, mas com bons ingredientes, consegue levar-nos ao céu. Basta cozer a massa e juntá-la a uma salada de tomate e mozarela cortados em pedaços pequenos, temperados com azeite, vinagre balsâmico e folhas de manjericão rasgadas. A massa vai para a taça quente e tem de estar al dente; o tomate (cereja ou não), amadurecido até à perfeição, o azeite e o queijo mozzarela de boa qualidade, fazem deste prato uma festa. Já tentei torná-lo mais complexo juntando atum, ou azeitonas pretas, mas não vale a pena, é um verdadeiro caso de ‘less is more’.
SEXTA-FEIRA · Uma espécie de Nasi Goreng
À sexta normalmente a energia para cozinhar está completamente em baixo, por isso é o jantar mais preguiçoso de todos. Tem este nome indonésio todo ‘fancy’ mas na verdade é um arroz de restos e restinhos, juntando tudo o que foi ficando no frigorífico. A única diferença é uma espécie de crepe de ovo que se enrola e corta em tirinhas. À europeia acho que se mexeria o ovo junto com o arroz, aqui um ovo batido é posto numa frigideira untada com óleo de coco e cozinhado dos dois lados como uma finíssima panqueca. Depois de sair da frigideira é enrolado e cortado em fatias estreitas, que se juntam ao arroz previamente cozido e salteado com molho de soja no wok juntamente com o que houver em casa de restos de legumes cozinhados, com ou sem peixe ou carne cortados em pedaços pequenos. Pode-se fazer igual com massa, mas se assim for o nome muda para uma espécie de Mie Goreng.

SÁBADO · Batido de banana e mirtilos
Desde que a nossa filha surfista nos deu a conhecer a Earthy Andy (@earthyandy) ficamos fãs da vida dela no Hawai e destes batidos ou gelados feitos só com fruta congelada. Temos sempre banana às fatias e outras frutas no congelador. Aqui fizemos com 3 bananas, uma caixa de mirtilos e 8 cubos de leite de côco (tudo congelado e triturado no robot 5 minutos depois de tirar do congelador).

DOMINGO · Bolo de tâmaras
Não sou diabética mas deixei de comer açúcar em 2013 e pouco depois os meus filhos deixaram de comer os bolos que faço. Cuspidelas indignadas de um bolo de chocolate perfeito que afinal era de banana, alfarroba e adoçado com geleia de arroz ensinaram-nos a aproximar-se dos meus doces com imenso cuidado. Este bolo veio trazer a reconciliação à nossa casa. Só me avisaram para não mudar nunca esta receita, estou proibida de ‘inventar’… É adaptado do blog Stonesoup. Leva 250g de tâmaras (compro no Martim Moniz), às quais tiramos o caroço e cobrimos com 200g de água a ferver. Deixamos ficar uns minutos e transferimos as tâmaras e a água para um robot, trituramos até ficar um puré. Acrescentamos 250g de manteiga aos bocados e trituramos. Juntamos 2 ovos e continuamos a triturar. A seguir 250g de farinha de arroz e 2 colheres de chá de fermento e trituramos até ficar homogéneo. Coze no forno 1 hora numa forma de silicone. Não é muito fácil de desenformar mas faz o maior sucesso. E claro que já experimentei com farinha de trigo sarraceno e até com farinha de trigo e fica sempre bem!

É designer gráfica, alfacinha e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. É da sua vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, que nasce o Slower.






Finalmente uma família numerosa e que vive no caos organizado 🙂 Parabéns, adorei!
Obrigada!
Deliciosamente perfeito! Prática, sem pretensões, a criar desenrascados desde o inicio do século. E as beringelas que tenho no frigorífico saem logo à Parmesã que é um gosto! Obrigada!
Obrigada!!
Esta mulher não para de me surpreender. Todos os dias, ou quase, testemunho este praticidade. Excelente artigo minha caixinha de Pandora!
Obrigada!!