SETE DIAS, SETE PRATOS · TERESA PAIVA


Espero que este atraso na publicação do sete dias sete pratos não tenha causado transtorno na organização da vossa ementa semanal. Então, e por isso mesmo, trazemo-vos as sugestões de uma cozinheira de mão cheia e que… não gosta de planear as refeições e prefere ir cozinhado aquilo que à família vai apetecendo.

Queridos leitores, desculpem o atrasado mas, como mais vale tarde do que nunca: esta semana, os Paiva!

Olá, somos os Paiva e Pona, uma família de seis e um cão. Nascidos em Lisboa, há 25 anos decidimos que queríamos viver mais devagar e aterrámos numa pequena aldeia do concelho de Serpa.

Cá em casa todos gostamos de cozinhar. Os miúdos começaram desde cedo a interessar-se por tachos, panelas e facas. Fiz com eles o que a minha avó Maria Emília – diretora da revista “Banquete” – fez connosco. Enquanto cozinhava para os nove filhos, distribuía tigelas pelas netas e ia adicionando ingredientes para nós cozinharmos com ela. E lá saíam uns biscoitos duros ou umas bolachas tortas que nos enchiam de orgulho.

Aos poucos, depois de alguns inevitáveis acidentes, todos se foram tornando independentes na cozinha. Quando o meu filho mais novo nasceu não tive de me preocupar pois qualquer um dos outros (na altura com 14, 11 e 9 anos) cozinhava uma refeição. Entretanto, o mais novo já ajuda e está sempre desejoso de aprender.

Ao contrário da maior parte das pessoas, não gosto de escrever ementas para a semana toda. Como nos organizamos então? Aquele que vai às compras vê o que está em promoção ou o que tem aspeto mais fresco e pensa no que se há de fazer. Depois de comprar o que é necessário para duas ou três refeições, confiamos na imaginação para criar novas refeições a partir dos restos. Esticamos tudo ao máximo e aproveitamos o que é próprio da estação. Costumamos recorrer a temperos caseiros previamente feitos ou a conservas e picles que fazemos ou recebemos da família no Natal e que, com um pouco de imaginação, enriquecem qualquer prato ou permitem preparar um assado num instante. Temos sempre sopa e quase sempre legumes salteados ou salada. Os verdes têm ainda alguma oposição dos mais novos, mas quando crescem, melhora.

As receitas que propomos são as que mais sucesso têm cá em casa, embora talvez não sejam as que serviríamos de uma assentada durante uma semana. Para ser franca, tenho dificuldade em seguir uma receita à risca, por isso estas são só um ponto de partida. Não temam, inventem à vontade! Uns dias saem melhores, outros piores… Mas assim é que se evolui!

2º FEIRA · Caldo de cação ou cação de coentrada
Uso uma ou duas postas de cação por pessoa, dependendo do seu tamanho.
Numa panela, deita-se um dente de alho, uma cebola picados, um bom molho de coentros também picados, 1/2dl de azeite, sal, o peixe e cobre-se tudo com água. Quando o cação estiver cozido, retira-se um pouco do caldo, junta-se-lhe um golpe de vinagre e dissolve-se nele uma colher de sopa de farinha. Juntar a farinha bem dissolvida ao caldo da panela e deixa-se levantar fervura. Serve-se num prato fundo por cima de uma fatia de pão alentejano.

3ª FEIRA · Toad-in-the-Hole (receita do livro Petiscos do Ramsay)
Preaquecer o forno a 200 graus. Verter duas colheres das de sopa de azeite numa assadeira (cap. 1,5l) e vertê-la de modo a ficar untada. Pôr 8 salsichas na assadeira, agitando-a de modo a que fiquem também besuntadas de azeite. Levar ao forno 10 minutos. Entretanto, prepara-se a massa: num copo, colocar 150g farinha, ½ colher de chá de sal fino, dois ovos grandes e 150ml de leite. Triture durante uns minutos até obter uma massa aveludada sem grumos.
Retirar as salsichas do forno e cobri-las com esta massa, voltando ao forno por mais 30 minutos, até que a massa cresça e fique dourada.
Em seguida, faça um molho de cebola. Derreta 20g de manteiga numa caçarola, junte duas cebolas roxas cortadas em rodelas finas e tempere com sal e pimenta. Deixe refogar em lume médio durante 8-10 minutos até as cebolas amolecerem. Mexa de vez em quando. Adicione então 1 colher e meia de sopa de farinha e mexa por um minuto. Em seguida, verta gradualmente 30ml de caldo de galinha, mexendo sempre, e depois deixe levantar fervura. Acrescente 1 colher de chá de mostarda, duas de sopa de geleia (groselha, marmelo ou que tiver em casa) e umas gotas de molho inglês. Deixe fervilhar até encorpar e formar uma capa fina. Retifique os temperos. Retire a assadeira do forno, deixe repousar uns minutos e acompanhe com o molho de cebola e uma boa salada verde.

4ª FEIRA · Caril
Cá em casa todos adoramos caril e é rara a semana em que não o fazemos. Pode ser de frango, de atum, de rojões de porco, de grão e vegetais… Dependendo do que estiver a fazer mais falta na dieta nessa semana. Nem todos o fazemos da mesma maneira. Esta semana calhou ao Tomás fazer o caril e ele não põe polpa de tomate. O Domingos, de certeza que o faz também de modo diferente. Mas sabe sempre bem!
Eu faço-o assim e sai sempre bem: ponho um fio de azeite com o pó ou pasta de caril a estalar durante um pedaço e depois, depende. Às vezes junto só alho, noutras junto cebola, noutras aproveito para ralar uma courgette ou outro legume, a carne ou peixe em seguida e deixo refogar um pouco. Depois junto um pouco de polpa de tomate e tempero com sal, pimenta, um pouco de açafrão e uma folha de louro. No final, junto meia lata de leite de coco. Deixa-se apurar um pouco e serve-se com arroz.

5ª FEIRA · Caçarola do Tomás
A receita original é “Caçarola de porco” do livro A Batata na Cozinha, do Círculo de Leitores. Cá em casa tornou-se uma especialidade do Tomás. Deve ser feita com uma certa antecedência pois fica no forno durante quase duas horas.
Frite uma embalagem de bacon picado numa frigideira durante 3 minutos. Junte 1 cebola grande picada e mantenha ao lume até que esteja macia. Misture 200g de cogumelos frescos cortados em quartos, tempere com tomilho e orégãos. Retire e reserve estes ingredientes. Na mesma frigideira, aloure meio quilo de carne de porco cortada em cubos e previamente polvilhada com duas colheres de farinha temperada com sal e pimenta. Junte o bacon e os cogumelos que reservou.
Numa assadeira, coloque esta mistura em camadas alternadas com meio quilo de batatas cortadas em rodelas finas. A última camada deve ser de batata. Regue com 300ml de caldo de galinha, cubra com 25 g de manteiga cortada em cubinhos. Tape com papel de alumínio e leve ao forno previamente aquecido a180 graus, durante 1h / 1h30. Retire o papel de alumínio e deixe alourar as batatas que estão à superfície.

6ª FEIRA · Pataniscas
Embora não seja muito comum fazermos fritos, ninguém resiste a estas pataniscas que a minha mãe e a minha avó materna faziam quando eu era miúda… Geralmente, aproveitamos a água de cozer o bacalhau e uma ou duas postas já desfiadas.
Misturar numa tigela 125g de farinha com 1 colher das de sopa de manteiga ou margarina derretida, um ovo e a água de cozer o bacalhau. Nós reservamos cerca de meio litro, gostamos delas fininhas. Mexer bem para não ficar com grumos e acrescentar o bacalhau desfiado. Deixar a descansar um quarto de hora, pelo menos. Pôr colheradas a fritar numa frigideira em pouco óleo bem quente para ficarem estaladiças. Acompanha com um arroz malandrinho de tomate e pimento.

SÁBADO · Açorda de tomate
Numa caçarola grande, salteie dois dentes de alho picados num pouco de azeite. Junte 1kg de tomate maduro, cortado em pequenos cubos, uma mão cheia de folhas de manjericão e um pouco de pimenta preta moída por cima. Deixe cozinhar 5 minutos e tempere com sal. Junte 1 litro de caldo de frango e deixe ferver lentamente. Corte 500g de pão de véspera em cubos, retirando as côdeas, e acrescente-os ao tacho, mexendo. Deixe cozinhar em lume muito brando por 30 minutos. Acerte o tempero e sirva em malgas com um fio de azeite e queijo parmesão ralado por cima.

DOMINGO · Coq au Vin Pie (receita de Annabel Longbein, Free Range Kitchen)
Corte em pedaços 6 fatias de bacon e salteie num fio de azeite com dois dentes de alho e a parte branca de dois alhos franceses. Junte 500g de cogumelos frescos, lavados e cortados em pedaços. Deixe cozinhar 10 minutos, retire e reserve. No mesmo tacho, acrescente 3 colheres de sopa de margarina e cerca de 50g de farinha mexendo bem. Junte 480ml de caldo de galinha aos poucos e 480ml de vinho tinto, mexendo sempre. Acrescente então 1 lata pequena de tomate pelado, esborrachando o tomate contra as paredes do tacho (faz muito bem ao stress). Tempere com tomilho, duas folhas de louro e salsa picada. Junte 10 pernas de frango desossadas ou meia dúzia de peitos de frango (estes ficam mais secos). Tape e deixe ferver 20 minutos.
Em seguida faça a “pie”: misture duas chávenas de farinha com fermento, duas colheres de chá de sal fino e outras duas de pimenta preta moída e ainda 1 colher de sopa de alecrim picado. À parte, misture 120ml de leite com 120ml de azeite e depois junte tudo, misturando com as pontas dos dedos em areia.
Colocar as pernas de frango numa assadeira grande, acrescentar os vegetais e o molho, cobrir com a areia e levar ao forno pré-aquecido durante 40 minutos. Rende bastante, o que é óptimo.

Aos fins-de-semana o jantar é sempre uma sopa e algo mais divertido… pizza caseira, scones, pão com queijo fresco, ou outros queijos de pasta mole e chutney, panquecas… algo que suje menos loiça!

Maria Cordoeiro

É psicóloga. Tem quatro filhos. Um marido. Dois cães. Gosta de dias tranquilos mas que não lhe fujam dos planos. Gosta de cozinhar, de ouvir música, de costurar, de se deitar tarde, de tricotar e de ir à praia. Gosta de fazer coisas em geral e de pessoas em particular. Ou vice-versa. Tem um blogue onde conta alguns pormenores do seu dia-a-dia e onde fala da sua procura de um equilíbrio que considera urgente: parar e aproveitar todos os momentos, em contacto com a Natureza e com os outros. Em 2017 escreve o livro Viver Devagar e inicia a sua colaboração com o Slower.

2 Comments

  1. Eu até já conhecia o toad in the hole, mas o molho de cebola!… Oh meus Deus! Genial. Só por isso já valeu a pena (mas já tinha valido sem isso, claro!)

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