SETE DIAS, SETE PRATOS · CONSTANÇA CABRAL


A nossa primeira convidada do Sete Dias Sete Pratos é, desde há muito tempo, uma grande inspiração para mim e devo-lhe muitas mudanças que fiz na minha vida (embora, provavelmente, ela não o saiba). Tive também o privilegio de a ter a contribuir para o meu livro com os seus “eco-sacos para fruta e legumes” que são hoje fundamentais nas minhas idas às compras.
Já tive o prazer de a conhecer pessoalmente na sua última vinda a Portugal e, apesar de nunca ter experimentado um dos seus pratos, tenho a certeza que é uma excelente cozinheira. Depois de lerem e verem a fotos vão perceber!

Queridos leitores, esta semana connosco no Sete Dias Sete Pratos, Constança Cabral:

Somos uma família portuguesa a viver na Nova Zelândia rural, onde as mercearias e as frutarias não existem, o bacalhau e chouriço são impossíveis de encontrar e a peixaria é uma carrinha que visita a vila uma vez por semana.

Estes sete pratos que hoje vos proponho não são, de maneira nenhuma, a minha visão ideal daquilo que uma família deve comer durante a semana. São, sim, a realidade da nossa vida presente: dois filhos pequenos e muito pouco aventureiros em termos de paladares diferentes e coisas verdes, influência dos sítios onde temos vivido (antes de nos termos mudado para a NZ vivemos uns anos em Inglaterra) e a necessidade de que o jantar seja um momento de paz e não uma batalha.

Cá em casa o cozinheiro de mão-cheia é o Tiago. Para mim, o jantar ideal é aquele que pode ser preparado em pouco tempo (ou feito de véspera pelo Tiago) e em que o forno é que faz todo o trabalho. Confrontada com a escolha entre passar uma hora a coser ou a ler ou uma hora na cozinha, escolho sempre a primeira hipótese!

SEGUNDA-FEIRA · “Frango da mãe” (Constança)
Liguem o forno a 150ºC e preparem-se para mantê-lo ligado durante duas horas. É esse o truque do “frango da mãe”, assim baptizado pelo meu filho mais velho. Este processo de cozedura lenta resulta num frango que se desfaz quando está pronto e é ideal para frangos de campo, que nunca são tão tenros como os seus primos de aviário.
Num tabuleiro de forno, coloco o frango e bastantes batatas e cenouras cortadas aos bocados. Atiro lá para cima umas folhas de louro, um fio de azeite, um bom bocado de manteiga e um punhado de sal grosso. Forno a 150ºC durante duas horas e já está. Um verdadeiro frango “slower”!

TERÇA-FEIRA · Salsichas com cidra, bacon e maçã +puré de batata (Tiago)
Esta receita é do Nigel Slater. Originalmente foi concebida para frango, mas também funciona muito bem com salsichas frescas (na NZ há muitos tipos de salsichas — as nossas preferidas são as de porco e maçã).
Salsichas: fritar cubos de bacon num tacho. Quando o bacon estiver frito, retirá-lo e fritar uma maçã cortada em fatias bem fininhas. Quando a maçã estiver caramelizada, juntar as salsichas, o bacon e 200ml de cidra. Tapar e deixar cozinhar em lume brando com a cidra a borbulhar. Juntar sal e pimenta a gosto.
Puré de batata: descascar e cortar as batatas aos cubos. Levá-las ao lume em água com sal e deixá-las cozer bem. Escorrê-las e voltar a pô-las na panela para as secar. Juntar cerca de 50g de manteiga cortada aos cubos e esmagar tudo bem. Juntar um copo de leite quente e incorporar com uma colher de pau.

QUARTA-FEIRA · Tarte de carne + arroz e ervilhas (Constança)
Tenho imensas saudades das tartes dos pubs ingleses e reservo esta tarte para dias frios e cinzentos. Idealmente o recheio é feito de véspera, de preferência pelo Tiago enquanto está a fazer outro jantar. No próprio dia faço a massa, normalmente com os meus pequenos ajudantes.
O recheio não é mais do que um estufado de carne com cebola, cenouras e cogumelos. Para que fique com um molho espesso, no final junta-se um bocado de farinha e vai-se mexendo até que a farinha fique bem cozida (cerca de 10 minutos).
A massa faz-se bem à mão, mas com um robô de cozinha ou uma Bimby demora menos de um minuto. A 200g de farinha juntar 110g de manteiga fria cortada aos cubos. Incorporar a manteiga na farinha e adicionar uma pitada de sal. Depois juntar um bocadinho de água fria aos poucos: o suficiente para que a massa fique toda ligada numa bola (não é preciso muita água).
Colocar o recheio numa tarteira funda. Cobrir o fundo e os lados da tarteira com a massa estendida e, se estiverem para aí virados, podem usar a massa que sobra para enfeitar a tarte. Pincelar com um ovo batido e fazer um corte no centro para que o fumo possa escapar. Servir com arroz e ervilhas.

QUINTA-FEIRA · Peixe + batatinhas salteadas e brócolos (Tiago)
Quinta-feira é dia de peixaria sobre rodas na povoação onde o Tiago trabalha. O peixe na NZ é vendido já cortado em filetes (sem pele nem espinhas). Se quisermos comprar um peixe inteiro, temos de encomendá-lo na semana anterior e arranjá-lo em casa, porque aqui inteiro é mesmo inteiro!
Esta é a receita mais simples do mundo. Derreter um bocado de manteiga numa frigideira e fritar o peixe. Durante a fritura, pôr sal e juntar o sumo de meio limão. Cozer as batatas e depois salteá-las em azeite. Cozer brócolos durante cinco minutos.

SEXTA-FEIRA · Uma espécie de quiche lorraine + arroz e salada de tomate (Constança)
Apesar de os meus filhos serem puristas e preferirem que esta tarte seja feita apenas com queijo e fiambre, é um daqueles pratos perfeitos para limpar o frigorífico. Restos de frango de segunda-feira, as ervilhas de quarta-feira que as crianças se recusaram a engolir, aqueles restos de legumes de ficam no fundo do frigorífico… vale quase tudo.
Faço a massa com 150g de manteiga, 75g de farinha, uma pitada de sal e mais ou menos 50g de água fria. Unto a tarteira, forro-a com a massa e encho-a com os ingredientes acima sugeridos. Uso a massa que sobra para fazer três tartes pequenas para o meu filho mais velho levar para a escola.
Numa taça grande juntar 500ml de leite, 5 ovos e um bocadinho de sal e pimenta (quando uso fiambre não ponho sal). Bater tudo vigorosamente e despejar para dentro da tarteira. Cozer no forno a 180ºC durante cerca de uma hora.

SÁBADO · Hamburgers de borrego e feta + salada (Tiago)
Numa taça grande, juntar meio quilo de carne picada de borrego (ou de vaca, se preferirem), 3 colheres de sopa de pão ralado, um ovo inteiro, 1/3 de um pacote de feta esfarelado, sal grosso, pimenta, salsa picada, tomilho, molho inglês e uma colher de chá de mostarda. Misturar tudo com as mãos. Fazer bolinhas, espalmá-las e fritá-las numa frigideira com manteiga.

DOMINGO · Pizza + salada de tomate cereja, abacate e coentros (toda a família)
A nossa receita preferida de massa de pizza é feita com 250g de farinha para pão, 2 colheres de sopa de azeite, 1 colher de chá de sal, 1 colher de chá de fermento seco para pão e 150ml de água morna. Amassa-se e deixa-se levedar durante uma hora.
Esta massa dá para duas pizzas grandes: uma para miúdos e outra para graúdos. A dos miúdos é sempre igual: uma base de cenoura ralada e depois fiambre, queijo feta aos bocados e queijo edam ralado por cima. A dos graúdos vai variado, sendo que a minha preferida é a que leva queijo de cabra, nozes, espinafres e mel.

Maria Cordoeiro
É psicóloga. Tem quatro filhos. Um marido. Dois cães. Gosta de dias tranquilos mas que não lhe fujam dos planos. Gosta de cozinhar, de ouvir música, de costurar, de se deitar tarde, de tricotar e de ir à praia. Gosta de fazer coisas em geral e de pessoas em particular. Ou vice-versa. Tem um blogue onde conta alguns pormenores do seu dia-a-dia e onde fala da sua procura de um equilíbrio que considera urgente: parar e aproveitar todos os momentos, em contacto com a Natureza e com os outros. Em 2017 escreve o livro Viver Devagar e inicia a sua colaboração com o Slower.
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4 Comments

  1. A Constança “faz parte da minha vida” há cerca de 10 anos! Sigo o seu blog desde quase do início e é uma verdadeira inspiração. Tão bom vê-la aqui no Slower!
    Obrigada pela partilha Filipa e Maria. Um grande beijinho <3

  2. Sigo o blog da Constança desde que ela nos apresentava as suas clutches e a sua casa em Lisboa. Comecei a costurar,motivada pelos posts dela. Quase que me sinto uma amiga que está distante mas tão próxima. Adorei vê-la aqui. Considero que ela personifica a verdadeira slow life, muito antes de se falar deste conceito. E por isso é que tem sido uma inspiração para mim em tantas etapas da minha vida. Muito obrigado por a incluirem na plataforma porque é totalmente merecido.

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