NÃO VAMOS ESQUECER


Desde os incêndios de Outubro que a Maria e eu, andamos a tentar perceber como podemos contribuir para apoiar as populações que sofreram com esta tragédia e prevenir outras. Pedimos-vos ajuda inclusivé, porque mais cabeças pensam melhor.

E tivemos resposta. Chegaram-nos ideias e contributos de várias formas e feitios, interessantes e válidos. A ideia era, partindo daí, fazer uma selecção e reunir iniciativas que iam desde manifestar, votar, educar, plantar, contribuir a várias outras.

Mas a informação cruzava a internet e os media a uma velocidade alucinante. Um dia partiam caravanas de roupa para ali e noutro local, era divulgado que havia roupa a mais. Em algumas localidades havia pessoas com fome e noutras, falta de recursos para gerir o que chegava.

Os dias passaram e nenhuma de nós se sentia muito confortável em divulgar o que tinhamos alinhado. O problema tinha, e tem, tantas frentes. Não só era difícil fazer a dita selecção, como sentimos que esta não iria acrescentar muito para além de enumerar alguns caminhos de forma pouco sustentada. Até porque o que era válido nesse momento, poderia muito bem deixar de o ser passados uns dias.

Há objectivos urgentes e a curto prazo para re-alojar famílias, recuperar o sustento e a natureza. E o sono, o descanso e paz depois de tão grande trauma. Há objectivos a médio e longo prazo para prevenir que uma calamidade destas volte a acontecer.

Outras noticias começaram a surgir e com ela, uma angústia e sensação de dejá vú. Medo que a onda de solidariedade extraordinária que se fez sentir desvanecesse. Que nada mudasse na nossa consciência colectiva. Que fossemos brandos e deixássemos de exigir acções de fundo ao nosso governo. Que nos desresponsabilizássemos como cidadãos e sacudíssemos a água do capote. Que nos pudéssemos esquecer desta calamidade. Até chegar o próximo verão e a próxima vaga de incêndios. A próxima tragédia.

Fui lembrada das palavras do nosso Presidente da República: ‘O meu grande objetivo é não deixar esquecer na voragem das notícias do dia-a- dia. As pessoas chocam-se muito, sobretudo o país mais longínquo do que está hoje a sofrer, de repente fica desperto para uma realidade que não conhecia, dura um dia, dois, três ou uma semana mas depois parte para outra realidade‘. E a promessa:

Eu não deixarei esquecer o que se passou.’

As coisas tornaram-se claras.

Se juntarmos à mesa 10 pessoas com este assunto na mesa, teremos 10 diferentes vozes. Os que responsabilizam as políticas ambientais dos últimos 30 anos. A desertificação e envelhecimento do país. Os grupos económicos. A corrupção. A ausência de meios no combate aos fogos. As alterações climáticas. As acções criminosas.

Mas há um ponto em que todos concordamos: Não pode ser esquecido. Não podemos esquecer. Não vamos esquecer. E isto é algo que não quero deixar por mãos alheias. É algo que nos chama a todos. E todos podemos fazer alguma coisa.

Como a Maria que, um dia, sem pensar muito, mandou uma mensagem para o facebook de Tábua a saber se precisavam de uma psicóloga voluntária e foi surpreendida por um sim instantâneo.

E com ela, 3 outras voluntárias fizeram-se à estrada para dar apoio psicológico a quem há 2 semanas não dormia. E outras 3 se juntaram, para ajudar a reconstruir o sustento desta comunidade. E artistas daqui e do outro lado do mundo, doaram as suas obras para angariação de fundos. E uma Plataforma Colaborativa. E uma Instituição de Solidariedade Social. E uma ONG. E uma equipa criativa.

E assim nasceu um grupo de trabalho, o movimento solidário Não Vamos Esquecer. Uma plataforma que irá ter várias iniciativas de angariação de ajuda com objetivos concretos e em permanente articulação com o Presidente da Junta de Freguesia de Covas e seus habitantes. E que, até ver estas aldeias erguidas das cinzas não vai baixar os braços.

Alguns dos grandes objectivos para esta comunidade, a curto prazo:

  • Reconstruir e equipar 70 barracões ardidos onde a maioria tinha o seu sustento: animais, máquinas, alfaias agrícolas, rações, alimento.
  • Fornecer sementes para poderem voltar a ter as suas hortas e as suas árvores.
  • Proporcionar um Natal confortável a cada uma das 100 famílias de Covas, oferecendo um cabaz com bacalhau, azeite, vinho, batatas, ovos, couves, cebolas, grão, leite e bolo-rei.

A esta hora, 4 voluntárias do movimento Não Vamos Esquecer, estão novamente em Covas, para dar continuidade ao apoio psicológico mensal que iniciaram e que prevêm prolongar por 6 meses. Com elas levaram a 3 motosserras que conseguiram comprar com donativos e outras 67 são precisas.

Para tudo isto, contamos convosco e convidamo-vos a seguirem o Não Vamos Esquecer. Lá, serão partilhados todos os passos deste caminho: objectivos, necessidades e tudo o que formos conseguido.

Estamos abertos a colaborações e donativos através da conta solidária Não Vamos Esquecer, criada especificamente para este fim pela Associação Gaivotas da Torre.

Obrigada por lerem. Se pudermos contar convosco, chegaremos mais longe.

Estamos juntos,
Filipa

· Conta Solidária Não Vamos Esquecer · PT50 0033 0000 00048400701 18 ·

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.
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