NÃO ESQUECER É, TAMBÉM, MUDAR


Quando a tragédia do dia 15 de Outubro de 2017 aconteceu, espalharam-se nas redes sociais posts e comentários, apontando dedos indignados aos relativamente poucos que poderiam ter feito muito para evitar um Portugal ardido. Exigindo-lhes (e bem) uma mudança de paradigma no que toca ao território, à gestão da floresta e à protecção desta e das populações rurais.

Existem sim, poucos com o poder de fazer muito – sobre isso já quase tudo foi dito. Mas importa ter consciência de que, em paralelo, existem muitos que podem fazer pouco. E que são esses, todos juntos, que têm o poder de mudar – ou não – o mundo.

Esses muitos somos nós.

Se na questão dos incêndios é fácil apelar ao Estado e ignorar o nosso próprio cargo como parte da solução, na questão da seca – que vem somando um outro drama ao país – essa externalização de responsabilidade torna-se bem mais difícil.

No fim de Novembro, 97% do território nacional encontrava-se ainda em seca severa e extrema. Os valores agora, não deverão ser muito mais animadores, a avaliar pela relativa ausência de chuva-que-se-veja. E os especialistas vêm adiantando que 2018 poderá não ser muito diferente e afirmando que os ciclos de seca por 8 e 10 anos tendem a ser a nova realidade.

A verdade é que as alterações climáticas vieram para ficar. As suas consequências deixaram de ser algo a que assistimos ao longe e que nos chega, apenas, pela televisão. Começam, cada vez mais, a fazer parte do nosso dia-a-dia. Contribuíram para os incêndios que este Verão ceifaram mais de uma centena de vidas e que levaram a casa, o sustento e entes queridos a muitos dos que sobreviveram. E estão na origem da seca que atinge o país, comprometendo a produção de cereais, de arroz, de queijo, de azeite e de pastagens que alimentam o gado. A terra esteve sem humidade para o cultivo na altura deste ser feito, a produção de energia hidroeléctrica atingiu níveis historicamente baixos (obrigando à importação de energia e ao recurso a fontes não renováveis como gás e carvão), o abastecimento de água a algumas populações exigiu meios pesados e tudo isto teve e tem impacto na vida das populações rurais que dependem diretamente da terra.

Se é certo que o país tem de combater o flagelo dos incêndios (aplicando receitas conhecidas há muito) e tornar-se mais resiliente à seca – para usar a palavra do ano, dita em tom de “desenrasquem-se” – é também certo que cabe a cada um de nós questionar-se sobre o seu próprio contributo para as alterações climáticas.

Isto porque as causas para o aquecimento global, que são poucas, estão grandemente associadas às nossas escolhas quotidianas e individuais:

  • Queima de carvão, petróleo ou gás
  • Abate de florestas
  • Aumento da atividade pecuária
  • Fertilizantes contendo azoto
  • Gases fluorados, que estão a ser gradualmente eliminados na UE

Eu sei que, visto assim, nada disto parece ter assim muito a ver conosco: ninguém anda por aí a cortar árvores, a aquecer-se à base de carvão, ou a criar vacas no logradouro lá de casa. Mas a verdade é que todas estas coisas ocorrem para alimentar hábitos de uma sociedade que se move, alimenta, veste e trata de uma determinada maneira. Uma maneira que muito interessará à industria; mas que interessa bem pouco a um mundo que se quer com futuro.

Voltarei a este assunto num próximo post, com algumas ideias práticas e mais terra-à-terra. Até lá, um desafio: questionarmo-nos sobre a nossa própria pegada ecológica. Partilhem aqui o que vão constatando e aquilo que acham que poderiam mudar.

Até já,
Rita

 

Sou a Rita, alfacinha, arquitecta e urbanista. Trabalho em planeamento da mobilidade urbana há alguns anos. Defendo o uso da bicicleta há muitos mais. Preocupo-me com o impacto que as minhas opções quotidianas têm à escala global. Estou a anos-luz de ser exemplar.

4 Comments

    1. Olá Luísa, obrigada pelo seu contributo! Este post é genérico, seguir-se-ao outros com ideias concretas e essa será certamente uma delas!

  1. La por casa ha muito ainda onde mudar: excesso de sacos de plástico, excesso de brinquedos e roupa, algum desperdício de água, algumas refeições compradas fora em embalagens descartaveis, muitos pecados na hora de reciclar. Temos melhorado alguns hábitos mas há definitivamente um grande caminho a percorrer.

    1. Olá Vera, obrigada pelo feedback! É difícil contrariar hábitos que todos nos dias são incutidos. Mas acredito que o primeiro (grande) passo é tomar consciência e dar início a esse longo caminho. Força 😉

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