O MELHOR PARA ELES OU O TUDO, AGORA


O que vou escrever, surge como reacção a um texto que li há perto de um ano atrás. Nesse artigo, a autora, mãe de duas crianças, referia que em vários programas culturais durante uma semana, sem grandes luxos, mas também sem privações, tinha gasto o equivalente a 2 consolas de jogos, cerca de 600€.

Daí às consolas serem o ópio do povo, pobre e cansado, foi um tiro. O aumento da sua produtividade a par de salários vergonhosos faz, segunda a autora, com que lhes seja virtualmente impossível resistir, em particular nas camadas mais pobres, sem tempo nem dinheiro. Concluía por fim, que educar filhos – o verdadeiro educar filhos, em humanidade e relações reais, sem recurso a babysitters digitais – era sinal exterior de riqueza, algo apenas disponível a ricos.

O texto foi amplamente partilhado e chegou-me por várias pessoas. Incomodou-me na altura que o li e ficou-me a incomodar durante um tempo. Parte pela densidade de actividades numa semana. Parte pela ideia de que o acesso à cultura é forçosamente caro. Parte por atribuir a ausência de relação entre pais e filhos a dificuldades económicas.

Chegado novamente o Natal, relembrei-o. Não vou discutir o preço dos bilhetes de cinema ou o ordenado mínimo, mas gostava de tentar trazer algumas alternativas para umas boas férias sem rebentar com a carteira.

Todos queremos dar o melhor aos nossos filhos, que nada lhes falte. Eu não sou diferente mas, ainda acredito que o melhor da vida é de borla. E tem mais a ver com o que passa cá dentro, do que com as circunstâncias em que nos encontramos.

Não é fácil, escapar à oferta ruído que nos envolve, com programas mil, gadgets para isto e soluções 3 em 1 para aquilo. Nem sempre se consegue parar e fazer a triagem do que disto, projectado para sermos “felizes”, faz de facto sentido. Mas é possível, com uma constante avaliação do custo benefício. Não só de dinheiro, mas de outro bem tanto ou mais precioso: o tempo.

Quando éramos nós as crianças, as coisas eram diferentes. Para começar havia muito muito menos oferta de programas e de bens. Um passeio, uma ida ao cinema ou algo diferente da normalidade dos dias era um acontecimento. Havia o gosto da antecipação e da espera. Estes dias eram como as notas altas de uma música.

Agora imaginem que educamos os nossos filhos diariamente apenas nas notas altas, numa sucessão de dias feéricos. Será que eles os apreciariam? Será que cresceriam em harmonia?

Eu sei, um miúdo a escorregar pelas paredes, aborrecido que nem um perú, também me faz alguma urticária. Mas, e se eu fosse um bocadinho menos ansiosa ou mais tolerante e o deixasse varrer as paredes todas da casa? Será que ele não ia encontrar alguma coisa, por ele próprio que lhe despertasse a curiosidade?

Aborrecimento para uns ou, a tal pausa para outros. Em que o ruído cessa e nos conseguimos ouvir, ver com clareza e pôr as coisas em perspectiva.

Da mesma forma, também nesses intervalos entre notas altas, reside um tempo importante para nos ligarmos aos nossos filhos. Seja no estender a roupa, ir buscar pão, o cozinhar juntos o almoço, uma leitura ou jogo de cartas, o silêncio enquanto esperamos o autocarro. Há sempre uma partilha e aprendizagem.

Quando à cultura, não sendo de borla, é acessível com algum planeamento ao longo do ano. Há domingos de manhã gratuitos em muitos museus. Há descontos em cinema 2 pelo preço de 1 com alguns cartões. Há inúmeras festas e concertos gratuitos ao longo do ano, vários deles na altura do Natal. Há cinema gratuito ao ar livre em alguns jardins no verão. Há várias igrejas históricas onde se entra sem pagar. Há bibliotecas municipais. E quem vive a esticar o ordenado é atento a iniciativas fixes como esta.

Há também a Natureza, acessível e que também ensina – não venham dizer que é Inverno, que infelizmente o que chove não chega. E há sempre a possibilidade de receber no aniversário ou no natal um vale para algo especial, de alguém querido.

Todos queremos dar o melhor aos nossos filhos. Mas o melhor nem sempre é tudo, nem tudo agora.


Luciane Valles é a fotógrafa das imagens deste artigo. Para ela, a fotografia é o melhor meio de preservar a história da uma família. Gosta de capturar a vida com honestidade sem esperar pelas poses perfeitas. Mais sobre o trabalho da Lu aqui.

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.

PARTILHAR Tweet about this on TwitterShare on FacebookPin on PinterestGoogle+Email to someone

3 Comments

  1. Filipa, concordo consigo. Querendo, é sempre possível puxar pela imaginação e fugir ao mais fácil e imediato. É preciso planeamento e alguma pesquisa também, claro, para encontrar programas mais em conta, mas, muitas vezes, o mais simples acaba por resultar em muitas horas de diversão e em laços que se fortificam. Partilho consigo as sugestões que já deixámos a quem nos acompanha e que vão, exatamente, ao encontro do que escreveu.

    http://www.atmums.com/2017/11/descobrir-cultura-7-sugestoes-para-toda.html
    http://www.atmums.com/2017/11/15-sugestoes-para-quando-chuva-chegar-o.html

  2. Mt fixe! Eu cresci assim, se ficávamos em LX nas férias eramos recambiadas para os museus, jardins, e passeios culturais. Tudo gratuito e aparentemente “meio aborrecido” para as crianças, mas nós adoravamos. Andar de transportes publicos, apanhar o elétrico, ver Lisboa ao fim de semana de manhã. Em casa faziamos compeonatos para jogar aos países, ao crapot e livros não nos faltavam para ler. Que maravilha recordar aqueles tempos! Felizes Festas Familia Slower! 😘

COMENTAR