MÃE-EQUILIBRISTA


IMG_0693De tempos a tempo foge-me um bocado de chão e lá parto em busca do equilíbrio novamente. São alturas em que me observo à distância e faço por juntar os pontos. Desde que sou mãe, essa busca passou ser ainda mais desafiante e a jogar com novos elementos, somando o malabarismo ao trapézio.

À custa da maternidade tenho crescido muito e também descoberto novas facetas, algumas descritas no maravilhoso livro “Pê de Pai” e das quais me apropriei. Se num momento sou mãe-trovão, logo a seguir sou mãe-motor, mãe-boia, mãe-colchão, mãe-esconderijo, mãe-despertador, etc. No entanto, há alturas em que sou mais vezes do que gostava, a mãe-esfregão, a mãe-apanha-do-chão, a mãe-vassoura, a mãe-cabide, a mãe-faz-a-cama. E digo mais do que gostava, para que, a mãe-yoga, a mãe-bebe-minis, a mãe-lê-um-livro e a mãe-silêncio (sem as quais a mãe-mentalmente-sã desapareceria para parte incerta causando danos imprevisíveis às crias) possam aparecer mais vezes. Mas, sobretudo, para que possam surgir os filhos-atentos, os filhos-participativos, os filhos-desembaraçados, os filhos-crescidos. Em suma, os filhos que crescem sabendo que têm todo o amor dos pais mas que não ocupam todo o seu mundo. Filhos-nem-totós-nem-tiranos.

Este não é um tema exclusivo das famílias de apenas um adulto e crianças, mas tem alguma tendência para ser mais gritante nestas circunstâncias. É uma existência um tanto bipolar: ora estou de mãos e casa cheias, ora tenho a casa silenciosa e posso andar a assobiar de mãos nos bolsos, se me der para aí. Ou seja, há um período muito intenso, em que naturalmente acabo por pôr-me mais em segundo plano do que no caso das famílias em que há dois adultos a revezarem-se na mesma casa, deixando a mãe-yoga-minis-e-tudo-resto, para os dias-sem-crianças – o que facilmente pode dar uma noção às crianças de que um pai (neste caso mãe) existe em função deles. Sempre tentei atenuar esse desequilíbrio e tenho feito um caminho nesse sentido, mas esse é um assunto que poderá ser aprofundado num outro post.

Vai daí, que no outro dia, enquanto tirava as coisas do forno e servia o jantar, pedi a um dos miúdos para pôr o seu prato da sopa na máquina da loiça. Pouco depois reparei que o prato tinha sido apenas passado por água e nada de máquina. Nessa altura refiz o pedido e a resposta foi qualquer coisa como um sonoro: Oh pá… fogoooo!

Pois, toma lá que é para aprenderes que os teus filhos amorosos também sabem ser carroceiros (com todo o respeito pelos carroceiros). Até andei de roda. Mas quem andou de roda a seguir foram eles. Perdi a calma, deitei tudo cá para fora e dei por mim a repetir o mesmo que ouvia em miúda (se bem que tenho cá para mim que nunca falei assim aos meus pais). Acho que até toquei ali nuns pontos de feminismo.

Posso dizer que depois disso, a cozinha ficou um brinco, nem uma migalha no chão. Mas deitei-me nessa noite a pensar como ia reverter esta noção de que pôr um prato na máquina, para uma criança de 7/8 anos é um favor que me faz e não uma responsabilidade sua. Senti-me esgotada de tanto repetir as mesmas coisas a toda a hora e de não ser ouvida vezes demais.

Ocorreu-me então que havia um problema de comunicação de expectativas, que podia ser melhorada. Apercebi-me que no dia-a-dia, vou dando algumas orientações, repetindo pedidos aqui e ali, apanha a roupa, arruma os legos, pratos na máquina (a seca do costume) e noutros dias (farta da minha própria voz) não tanto, vou avançando e dando mais apoio porque estão no banho ou pedem mais 5 minutos de brincadeira. Acho que na verdade, fora o falarmos nas tarefas do dia de cada um no caminho escola-casa, acho que nunca me sentei com eles e lhes expliquei o que esperava deles diariamente de uma forma mais consistente. Há rotinas sim, mas que podem estar talvez mais dentro da minha cabeça e não terem sido nunca comunicadas da maneira certa. Básico não é? Às vezes nem me dou conta que salto passos e claro, depois as coisas não correm tão bem.

Pensei um bocado numa estratégia e no dia seguinte convoquei uma reunião familiar, em que abordei o tema como se fosse a primeira vez, passando por estas etapas:

Responsabilizar
Falámos do que é isto de sermos família, de sermos uns para os outros e como isso envolve responsabilidades de adultos e crianças, de pais e filhos. De que as coisas funcionam bem melhor para todos quando pensamos como uma equipa. De como eles podem contar comigo e que eu conto também com eles. E que sim, há alturas em que fazemos e faremos fretes por um bem maior.

Concretizar
Passámos depois aos casos práticos: se todos ajudarmos a pôr a mesa, temos mais tempo para ler histórias a seguir ao jantar. Se forem para o duche à primeira em vez de se arrastarem, não só poupam a minha paciência (e a voz !), como ganham mais 10 minutos a brincar, etc.

Exemplificar
Lembrei-me de um artigo que tinha lido há tempos e mostrei-lhes um bom exemplo de cooperação numa família muito numerosa aqui ao lado, outro do outro lado do mundo e finalmente algumas tarefas para crianças. E não é que se entusiasmaram com os desafios? Agora querem trepar o escadote e mudar todas as lâmpadas da casa.

Planificar
Assentei num papel o horário das rotinas habituais para os dias da semana e introduzi algumas responsabilidades que, não sendo novas, não eram diárias, como fazer a cama, pôr a mesa do jantar, preparar a roupa, mochila e pôr a mesa do pequeno-almoço de véspera e preparar o seu lanche da escola. Pus o papel no meio da mesa para discussão entre os três e perguntei o que achavam e se haviam coisas ali que lhes parecessem difíceis ou desajustadas. A resposta foi muito positiva e o plano foi aprovado por unanimidade.

Implementar
Plano aprovado afixado no frigorífico! Já não me recordo quando começámos, mas faz algum sentido discutir o tema durante o fim-de-semana e arrancar com ele no início da semana.

O plano tem estado em vigor já há cerca de um mês e claro, há espaço para algumas revisões, mas tem corrido muito bem e tenho tido algumas boas surpresas. Mas isso fica para outro post, que este já vai bem longo.

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.
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4 Comments

  1. Maravilloso…
    Responsabilizar Falámos do que é isto de sermos família, de sermos uns para os outros e como isso envolve responsabilidades de adultos e crianças, de pais e filhos. De que as coisas funcionam bem melhor para todos quando pensamos como uma equipa. De como eles podem contar comigo e que eu conto também com eles. E que sim, há alturas em que fazemos e faremos fretes por um bem maior.

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