LÁ FORA


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Quando eu era miúda, enquanto os meus pais ficavam em Lisboa a trabalhar, eu e os meus irmãos éramos recambiados um mês para a quinta da família. Todos os verões éramos adoptados por uma tia em particular e por outros tios e muitos primos, no geral.

Saíamos de manhã para só voltar ao toque do sino para almoçar e jantar. Corri maratonas, esfolei os joelhos e fiz nódoas impossíveis. Trepei às arvores, roubei ovos às galinhas, lavei roupa no tanque, fui campeã de matrecos, aprendi a nadar, dormi noites ao relento, aprendi a distinguir a ursa maior e a ursa menor no céu, coleccionei rãs e persegui saltaricos, virei as primeiras panquecas na sertã, rasguei-me a apanhar amoras, comi tomates na horta e tirei mel da colmeia.

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Os banhos eram de mangueira, na piscina, no tanque e, muito de vez em quando, com sabão na banheira ou alguidar. Havia 1 telefone para 4 casas e o carteiro trazia-me postais dos meus pais e cartas dos meus amigos. Os Jogos sem Fronteiras passavam a preto e branco e a minha heroína era a Aurora Cunha.

Já não sou miúda há muito tempo e as coisas mudaram por aqui também. Os miúdos, que só cá se encontram uma ou duas vezes por ano, nem sempre têm tempo de vencer a timidez. O carteiro traz contas para pagar, a horta foi abandonada este ano por falta de mão de obra e as compras fazem-se em hipermercados vezes demais.

No entanto, apesar dos dias já estarem mais curtos, aqui são sempre maiores. Se calhar porque continuam sempre a haver coisas por descobrir. Se calhar porque continuam a ser vividos lá fora.

É preciso uma aldeia para educar uma criança, vem-me à cabeça sempre que cá estamos, e nunca a expressão “os miúdos crescem o dobro nas férias” fez tanto sentido.

Duas semanas disto é do melhor que posso dar aos meus filhos. E a mim também.

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É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.
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3 Comments

  1. Que paisagem maravilhosa!! Alugam a quinta para pessoas de fora? 😀
    mas sim, é verdade… eles crescem mesmo o dobro nas férias, concordo plenamente… quer física, quer mentalmente!
    bjs

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