ESTRATÉGIAS PARA UM ANO SLOW


slower_um_ano_slow_01As minhas férias são férteis em sonhos, novos planos e costumo regressar à vida cheia de energia, pronta para arregaçar as mangas. Até há pouco tempo atrás, isto significava lançar-me em várias direcções logo em Setembro: check-ups disto e cursos daquilo, reparações em casa, projectos para a escola dos miúdos, costura, etc. Um pouco como entrar na maratona que é o ano lectivo – verdadeiro início do ano para muitos – em modo sprint… O que geralmente significava chegar ao Natal a lamber o chão.

Ao envolver-me em demasiadas coisas, entrava rapidamente em sobrecarga. Ciclicamente, chegava ao final do ano a sentir-me assoberbada e que a minha vida me controlava a mim em vez do contrário. Sentia necessidade de abrandar, estabelecer prioridades e abrir mão de algumas coisas. Bernardette Noll, no livro Slow Family Living – leitura que recomendo a toda a gente – resume bem porque é isto é tão importante:

Quando estamos constantemente no ir, estamos a stressar os nossos sistemas de uma forma que nos pode deixar física e emocionalmente exaustos e desligados – de próprios e dos outros à nossa volta. Isto é especialmente verdadeiro para as crianças, que constantemente são apresentadas a novas coisas à medida que vão navegando o seu mundo. Se nos apressarmos de evento em actividade, de aula para obrigação, e daí para o trabalho de casa, tarefas e mais, então não há tempo para a integração de tudo. Abrandar o ritmo é parte essencial para a assimilação de toda e informação que recebemos num dia. Tanto em família como fora dela. Abrandar o ritmo é mais que uma boa ideia, é crucial para vivermos bem.

À medida que me fui apercebendo do padrão instalado neste último trimestre, fui introduzindo algumas estratégias para me ajudarem a prolongar a energia com que vinha das férias e a manter o equilíbrio ao longo do ano. Partilho aqui algumas delas.

1. ALINHAR INTENÇÕES
Assim que começam as férias escolares entro em modo verão e desligo de muita coisa até ao final de Julho. Depois vem Agosto, o mês para sonhar e projectar. Setembro, que tem sempre tanto a acontecer, é agora o mês em que me refreio e apenas dou resposta às coisas mais urgentes. Outubro é o mês em que vou formando uma imagem do ano que quero ter. Nesse sentido costumo alinhar duas ou três intenções e escrevo alguns passos concretos para as atingir.

2. ATERRAR DEVAGAR
Depois das férias, o regresso às rotinas já é duro o suficiente para todos, para ainda lhe somar o arranque de actividades extra-curriculares. Cá em casa, costumamos dar o mês de Setembro para nos recompor e vamos aterrando tão suavemente quanto possível, iniciando-as apenas em Outubro.

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3. PONDERAR A ESCOLHA DE UMA ACTIVIDADE
Algumas crianças, quando lhe perguntamos o que mais gostariam de fazer depois da escola, é ir para casa e brincar. Outras, querem fazer mil e uma actividades, não conseguindo prever que irão estar cansadas ao final do dia ou que essas escolhas vão roubar tempo a outras coisas que lhes são queridas. Cabe-nos a nós, fazer a triagem e ter presente que não tem de ser tudo já.
Além desta reflexão, há algumas perguntas que me coloco antes de os inscrever em alguma actividade, que valem para mim também: A distância, frequência, transporte e custo são compatíveis com equilíbrio e bem-estar de todos? O benefício justifica o esforço? Estamos preparados para os trabalhos de casa, torneios, saraus, reuniões, que daí podem advir? Estou a escolher A ou B em função das minhas próprias inclinações?

4. CRIAR TEMPO LIVRE
Nos últimos anos, a palavra de ordem tem sido o “fazer” e de tanto “fazer”, parece que desaprendemos o “ser” ou “estar”. Experimentem reparar quanto tempo demoram a puxar o telemóvel do bolso, quando se apanham desocupados por uns momentos, numa paragem de autocarro ou à espera de alguém. 1, 2, 5, 10 minutos? Se chegarem aos 10, tiro-vos o chapéu. Eu não cheguei lá, nem por sombras.
A dificuldade neste exercício é reveladora de algum nível de ansiedade e esta tem efeitos em nós e em quem nos rodeia. Reflecte-se por exemplo, na “necessidade” de ocupar ou de entreter as crianças, como se o tédio fosse algo nefasto. Pelo contrário, o tédio, bem doseado, estimula a criatividade, além de promover o auto conhecimento e a tolerância.
Assim, no último ano, tenho feito por guardar um dia do fim-de-semana livre de programas. Este é o dia em que deixamos assentar poeira, em que integramos o que se passou durante a semana, em que se põe a conversa em dia sem olhar para o relógio, o dia em que se inventam novas brincadeiras.

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5. VIVER O RITMO DAS ESTAÇÕES
A natureza tem períodos de hibernação e renovação, sombra e luz, frio e calor, e cada um deles tem o seu papel. Na maior parte do tempo esquecemo-nos que também fazemos parte deste ciclo, mas a verdade é que, consciente ou inconscientemente, no inverno ficamos mais por casa e no verão a rua chama por nós. No inverno sabe-nos bem mais comida e quente e, no verão, tudo o que é leve e fresco. No inverno dormimos mais e no verão menos. E isto é o que faz sentido, aceitar e seguir a nossa natureza. Como diz a Francisca, ouvir o que o corpo nos pede a cada estação é meio caminho andado para estarmos em harmonia.

6. PASSAR TEMPO NA NATUREZA
Este é uma das minhas intenções a reforçar este ano: mais passeios, mais exploração, mais ar livre. Não contrariando o ponto acima, poucas coisas são tão regeneradoras como passar tempo na natureza, todos sabemos. Alivia stress, melhora o nossa saúde, o nosso humor etc. Mas aqui em Portugal, depois de laurearmos a pevide na rua todo o verão, temos tendência para nos encolhermos em casa mal cai um pingo de chuva. Claro que também não vale a pena sair quando há alertas de temporal ou não nos sentimos bem, mas faz-nos bem pisar umas poças de lama de vez em quando.

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E vocês, que estratégias usam para abrandar e como vão viver melhor este ano? Gostava de saber as vossas dificuldades e conquistas.

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É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.
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5 Comments

  1. Olá Felipa,

    Estou a adorar o teu blog!
    Comecei a destralhar á séria e as tuas dicas têm-me ajudado imenso.
    Um grande beijinho, muitos Parabéns pelo site que apesar de não ser o meu género, adoro e muito sucesso.

  2. Olá Filipa, que texto mesmo giro, e é tão verdade o que dizes!!! O ponto 4 é para mim uma das maiores e melhores descobertas que fiz os últimos anos. Desde que mudamos de casa e que temos mais espaço, jardim e campo à nossa roda que também tentamos ter um dia do fds em casa sem programas, eventualmente o programa pode ser vir cá alguém. Os dias que passamos em casa sem programas são tempos preciosos, em que fazemos coisas que nunca nos passaram pela cabeça, como dizes inventam-se brincadeiras, cria-se muita coisa, tocamos novas músicas na viola, trata-se da horta, jogamos futebol ou às cartas, experimentamos novos cozinhados, le-se, dorme-se, conversa-se enfim…. Muitas vezes o dia do fds sem programas é o dia que mais me apetece de toda a semana… é o único dia para o imprevisto, para o improvável , sem horas, sem regras e em que tudo, ou quase tudo é permitido! Muitas vezes o difícil é exactamente ter esse dia! São tantas as solicitações, obrigações, oportunidades que parece que há uma força qualquer contra nós. Desde que percebemos que adoramos estar em casa sem programas, que decidimos ter esse tempo para os 5, quando optamos por não ter esse dia, sabemos exactamente do que estamos a abdicar e essa escolha passa a ser consciente e o programa tem mesmo que ser irresistível. Dizer que não é um exercício que tenho alguma dificuldade fazer, mas tenho feito óptimos progressos!! Optima perspectiva que me deste no tema das actividades extracurriculares obrigada 😉. Bjs

    1. Pois é, quando se toma o “não fazer nada” como um programa com hora marcada, começamos a perceber que é na verdade um programaço. Tenho sempre algumas agonias com o ponto da actividades extra-curriculares. Quando acho que tenho a coisa optimizada aparece sempre sempre alguma surpresa que me faz questionar e aprender qualquer coisa… mas vamos por tentativa erro, que remédio 🙂 bj!

  3. A propósito da ideia de “necessidade de ocupar ou de entreter as crianças, como se o tédio fosse algo nefasto”, junto aqui um artigo da Raquel Varela que achei interessante. Sim, porque isto de evitar que as crianças se aborreçam nos tempos que correm, não fica nada em conta.

    Filhos, sinal exterior de riqueza

    Posted on January 4, 2017

    Entre o Natal e o Ano Novo estive de férias. Fiz com os meus filhos o que queria fazer. Fui a bons concertos, adequados a eles, claro; levei-os a ver bons filmes (Ken Loach, Kusturica e Chaplin), cozinhámos juntos, tocámos piano, e sai música de lá!; andámos de trotinete; fizeram surf; até um cavalete de pintura comprámos, onde, com um livro de arte na mão, treinámos as primeiras tentativas de pintura a óleo; convidámos os amigos deles para sair; brincaram e passearam com a família, as primas, que adoram; lemos, muito, e conversámos sobre a leitura, jogámos cartas. Só em três idas ao cinema gastei quase 60 euros porque pagam como adultos; como algumas das vezes convidei os amigos, subiu para 100 euros, 20% do ordenado mínimo – ir ao cinema! Ah, têm 12 anos, mas pagam tudo como adultos: subir o elevador da bica – 3,70 cada; o bilhete de comboio da linha para Lisboa – nesse dia levei 4 crianças, 17 euros ida e volta; a entrada no castelo custa 8,50 para adultos – não entrámos, há limites…Juntem pinturas, pincéis, concerto, livros…A única coisa gratuita foi o Museu do Aljube, que adoraram, e as igrejas de Lisboa. Juntem uns gelados banais, uns hambúrguers, um chá com bolo em Alfama, sem luxos, passear na nossa cidade. Se tivesse ficado em casa tinha comprado duas playstation, uma para cada um, que os «educavam» o ano inteiro…Há muito tempo que tento dizer isto quando oiço dizer «no país há pobreza mas todos têm um bom telemóvel» – não há nada tão barato para educar filhos como Televisão e jogos de computador e telemóveis. É aí, no aumento da produtividade dos pais, no catatonismo anti-social e virtual dos filhos, que reside o boom das novas tecnologias para crianças que, ainda por cima, actuam no cérebro exactamente como uma droga, promovendo mecanismos de recompensação e satisfação ao nível do cérebro cada vez que estes tocam num botão e o boneco salta, porque o objectivo foi alcançado.

    Esta nova onda de babysitter electrónica é o espelho não da potencialidade da modernização mas da sua decadência. E deixem-me colocar o dedo na ferida – os pais, cansados, desanimados, com pouco dinheiro, desmoralizados e sem vontade de educar com conflitos, nãos, e outras resistências, serão os primeiros, porque a perversidade humana é uma linha ténue, a dizer «eles querem ficar em casa a jogar». Eles querem? E onde é que eles escolhem? E como escolhem? «Os pais submetem-se e submetem os filhos», disse-me uma vez o psicanalista e pedo psiquiatra Coimbra de Matos – os salários e o tempo de trabalho no país são vergonhosos. E o modo de vida que incorporámos para aceitar isto é regressivo, decadente. Viver está a ficar insuportavelmente caro neste modo de acumulação onde as necessidades humanas são todas mercantilizadas, até aquela que levou milhares de anos a conquistar – o direito à infância. Ter filhos e conseguir educá-los com humanidade, com relações reais, com aprendizagem e não com repetição de mecanismos, no fundo educar filhos com trabalho vivo (humano) e não trabalho morto (máquinas) é hoje um sinal exterior de riqueza.

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