PORQUE É QUE ESCOLHER MENOS É ESCOLHER LIBERDADE


@lucianevalles

No outro dia fui dar uma volta de bicicleta com a minha filha e com uma amiga nossa. A miúda não estava delirante com o programa e a nossa amiga, querendo transmitir-lhe que nem sempre podemos fazer o que nos apetece, disse-lhe: Se tivessemos dinheiro, iamos para as compras, mas como não temos, vamos andar de bicicleta.

Talvez ela quisesse comprar alguma coisa e percebeu que não podia? E não me lembro se respondi em voz alta ou apenas para dentro – não é por falta de dinheiro que não passamos domingo nas compras.

Mas não seria verdadeira se não admitisse que, a certa altura da minha vida, shopping era programa que adorava. Coisa da adolescência, importada juntamente com o Beverly Hills 90210 e as cadeias de moda no início dos anos 90. E até há não assim tão pouco tempo, cumpri o mantra chapa-ganha-chapa-gasta.

Continuo a adorar uma boa feira ou mercado de rua, mas de uma maneira geral, o consumo de impulso, remete-me para excesso e falta de ar. Especialmente desde que vi o True Cost e quis saber mais sobre o ciclo de vida da nossa roupa. Surgem-me imagens do black friday, fast food XXXL ou garagens suburbanas atafulhadas. É um cliché fácil. E para grandes excessos, grandes remédios: não é à toa que o minimalismo e o tiny house movement surgem nos EUA.

Por cá, somos mais modestos. Uns com mais, outros com menos. À maioria não sobra nada ao fim do mês. Poderiamos até dizer que esta coisa de minimalismo não é para nós, que temos pouco poder de compra, não fosse o termos o maior centro comercial da Europa sempre à pinha. Preversamente, parece ser sempre onde há menos rendimento que mais abundam as mega superfícies, grandes lojas e promoções imbatíveis. E claro, com maior incidência nos produtos não tão necessários assim.

Não há como negar, cá também comprámos o número de querer mais e maior porque todos nos dizem que é assim. Aparentemente fácil e rápido. Mas quantas vezes à custa do nosso sono, saúde, família… Às vezes até daquilo em que acreditamos. Parece meio dramático mas, se pensarmos que o dinheiro que temos disponível vem de trabalho e tempo a ele dedicado, trata-se apenas de ligar os pontos. O melhor da vida, não se compra, mas, como tudo, tem preço. Por isso é bom ter presente a razão pela qual damos o litro.

Lembro-me de um dia visitar um amigo que vivia fora da cidade no pino do Inverno. Talvez uma das pessoas que conheço que vive de forma mais verdadeira, numa vila e casa lindas. Quando eu ia guardar o leite que tinha trazido no frigorífico da cozinha, ele avisou-me que o tinha desligado há algumas semanas. Não lhe fazia falta. Os frescos que comprava, comia no próprio dia sem desperdício. Voltaria a ligá-lo quando o tempo aquecesse, explicou-me. Claro, pensei passado o primeiro momento de estranheza.

Este frigorífico desligado vem-me muitas vezes à memória, sobretudo quando sinto que tenho tudo enrolado num nó e me falta clareza. Relembra-me como a vida pode ser simples e boa. A verdade é que precisamos de muito menos do que achamos que precisamos. Apenas às vezes nos esquecemos de questionar.

Por isso, antes de mais nada, antes de começar ou retomar um destralhar, de simplificar tempo e ritmo, importa – de papel e de caneta em punho – responder às perguntas: O que nos move? Em nome de quê ou de quem andamos numa lufa-lufa? E depois, o que é que na nossa vida, no nosso dia-a-dia, contribui positiva ou negativamente para vivermos bem.

Para mim, minimalismo e simplicidade não são paredes ou camisas brancas. É ter os pés assentes na terra. É perguntar constamente, vale a pena? É escolher menos em nome da liberdade. E para vocês?

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.

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4 Comments

  1. Bem… Fiquei sem palavras e até me comovi. Porque há muito tempo que não via escrito por palavras tal e qual o que sinto em relação à vida e a este mundo que ás vezes nos faz sentir meias deslocadas (e pobretanas também)! Claro que já se esperava porque tenho encontrado neste slower tantas coisas em comum… Obrigada Filipa!

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