ENTREVISTA · RITA CASTEL’ BRANCO


Uma das coisas que sabíamos que queríamos fazer, quando iniciámos o Slower como plataforma colaborativa, era trazer-vos histórias e pessoas que nos inspiram. Pessoas que, cada uma à sua maneira, fazem escolhas que nos dizem muito e com as quais aprendemos. Umas não conhecemos e esperamos ficar a conhecer (ah!). Outras são próximas e fazem parte das nossas vidas.

Hoje trago-vos a Rita Castel’Branco, uma das próximas, muito próximas. Alguém para quem todas as palavras são poucas: família de sangue, irmã de coração, amiga de sempre, de muitas histórias e aventuras. A pessoa que desde o início do Slower esteve sempre ao meu lado, apoiando, lendo rascunhos, corrigindo as vírgulas fora de sítio e outras calinadas. Que veste a camisola e vai fundo em tudo o que faz, consistente na entrega, sem nunca baixar braços. Que se dedica, de paixão, a fazer a cidade de Lisboa, melhor para todos.

Conta-nos um pouco sobre ti. Quem és? Qual a tua história?
Sou a Rita, alfacinha, arquitecta e urbanista. Trabalho em planeamento da mobilidade urbana há alguns anos. Defendo o uso da bicicleta há muitos mais. Preocupo-me com o impacto que as minhas opções quotidianas têm à escala global. Estou a anos-luz de ser exemplar.

Como surgiu a bicicleta no teu dia-a-dia?
Desde os 12 anos que me lembro de andar de bicicleta em Lisboa. Nessa altura, provavelmente, não teria muitas opções. Morava no Saldanha e andar de bicicleta era um programa em si mesmo, mas também uma forma de chegar mais depressa a outro programa qualquer. Depois disso, claro, houve fases, mas a bicicleta foi sempre estando mais ou menos presente. Primeiro porque não tinha carta, mais tarde porque não tinha carro… Andar de bicicleta era muitas vezes mais prático e rápido do que qualquer alternativa. E além disso fazia exercício!
Quando passei a ter carro, houve alturas em que pegava nele dia-sim-dia-sim, como tanta gente. Até que a preocupação ambiental falou mais alto: gradualmente, fui fazendo por concentrar as tarefas que me pareciam mais inacessíveis nos dias-com-carro e passei a deixá-lo em casa em todos os outros. Aos poucos, os dias em que precisava de carro tornaram-se cada vez mais raros. Percebi que quase tudo se faz de outra forma, com melhor disposição e liberdade. E que há muitas rotinas e questões logísticas que se podem resolver mais perto. A dada altura, o carro passava o mês parado à porta de casa sem que tivesse coragem de o vender. Até que, numa ida para a praia, algures em 2015, este gripou, para minha alegria…! E assim me livrei de uma despesa que já não fazia sentido.

Que benefícios te tem trazido o uso da bicicleta?
Durante muito tempo tive uma bicicleta convencional. Andava quilómetros a pé (sim, também isto significava exercício…!), de metro, de autocarro; a bicicleta era uma entre várias alternativas, conforme o que previa que viria a ser o meu dia. Até que em Fevereiro de 2016 me ofereceram uma bicicleta eléctrica – algo que sempre disse não precisar! A partir daí a bicicleta passou a ser o meu principal e quase único meio de transporte. Tenho dois alforges com poderes quase ilimitados, que uso quando é preciso. Passei a andar bem menos a pé; mas em compensação as distâncias maiores, que antes fazia de autocarro ou de metro, passaram a ser feitas de bicicleta eléctrica. Já não quero outra coisa! Chego a qualquer sítio em tempo recorde; a sensação de liberdade é imensa e em vez de um frete, deslocar-me de A para B passou a ser uma coisa que me traz paz, alegria e uma sensação de Verão Azul.

Podes dar-nos um exemplo de como é uma semana da tua vida?
Acordo em Santos, subo a Rua de São Bento, chego ao trabalho, na Alexandre Herculano, 7 minutos depois. Na hora do almoço posso ir almoçar com uma amiga a Sete Rios, ir a casa dos meus pais no Saldanha, ou ir tratar de coisas às Amoreiras, ao Chiado, à Baixa… Jogo ténis em Campolide, padel no Cluve VII de vez em quando, faço ginástica por perto, quando calha. Pode acontecer ter de ir ao Campo Grande a meio do dia ou a Alcântara ao fim da tarde, tenho reuniões dispersas, assuntos para resolver nos sítios mais diversos, combinações, eventos ao fim da tarde… Vou jantar fora de bicicleta se acontecer não passar por casa antes. À noite e ao fim-de-semana vou geralmente de carro com quem me acompanha neste ou naquele programa. Apanho um Uber quando preciso. Peço um carro emprestado quando tem de ser.

A utilização da bicicleta em Lisboa costuma ser rejeitada pelo seu declive acidentado, mas li que 75% da cidade é plana. Isto é verdade?
Sim, é verdade: 75% da cidade é plana ou apresenta declives abaixo dos 5%. Claro que há muitas ruas impossíveis, mas se planearmos o percurso conseguimos chegar a quase todos os lugares através de declives razoáveis, optando por percursos um pouco mais longos. Além disso, as ruas com declive estão concentradas na zona histórica – há muita gente que vive em Lisboa e para quem a rotina não passa por aí. Seja como for, com a banalização da bicicleta eléctrica, até essa questão deixa de se colocar.

Que conselho podes dar a quem acha que não tem tempo para usar a bicicleta como meio de transporte?
Quando me dizem “não tenho a tua vida, não poderia andar de bicicleta”, como se a minha rotina fosse tranquila, regular ou circunscrita, sorrio… É justamente por ter a minha vida, nada slow, que ando de bicicleta. Garanto que num raio de 6/8km, não há forma mais rápida (nem mais bem-disposta) de chegar a lado algum. De bicicleta sinto que consigo, literalmente, “enfiar o Rossio na Betesga”.

Algumas pessoas vêm ainda a bicicleta como incompatível com a vida familiar ou com o chegarem apresentáveis ao trabalho. O que lhes poderias dizer?
Que há bicicletas eléctricas que reduzem o esforço ao mínimo. Que as rotinas podem ser repensadas – às vezes organizamos a vida de uma forma que não nos ajuda em nada. Que há dias que são, de facto, incompatíveis com a bicicleta, mas que talvez hajam muitos outros em que esta é a melhor das ferramentas. A bicicleta deve ser encarada como qualquer meio de transporte: como algo que nos pode facilitar a vida. O mesmo se aplica ao carro. Muitas vezes usamo-lo sem questionar e nem sempre é útil, eficiente ou prático.
Temos muita resistência à mudança… Devemos questionar se as nossas opções são, efectivamente, as que nos trazem maior qualidade de vida. Já agora e a propósito de vida familiar, vale a pena dizer que as crianças que vão para a escola a pé e de bicicleta têm mais saúde, ganham autonomia mais cedo e apresentam melhores resultados escolares porque entram na sala de aula sem stress e com o “excesso” de energia já gasto.

Que impacto tem a mobilidade sustentável na qualidade de vida de uma cidade e dos seus habitantes?
O espaço que hoje está alocado ao tráfego (em circulação ou estacionamento) é espaço que deixa de estar disponível para outros usos economicamente mais interessantes. Por outro lado, o dinheiro que as famílias gastam com o automóvel (estima-se 370€/mês em média) é um valor desproporcional quando pensamos no rendimento médio de uma família portuguesa. É dinheiro que deixa de estar disponível no orçamento familiar e que, por isso, não entra na economia local de forma dispersa e equilibrada. Ainda do ponto de vista económico, a menor dependência automóvel leva-nos a resolver os assuntos mais perto de casa ou do trabalho e isso contribui para o comércio local e, consequentemente, para uma maior segurança e vivência urbana.
Por outro lado, uma mobilidade mais sustentável é, também, uma mobilidade mais saudável. Não apenas pela redução da poluição (estima-se que em Portugal tenham morrido mais de 6000 pessoas em consequência da poluição em 2015), e da diminuição dos acidentes rodoviários (no mesmo ano morreram 593 pessoas em acidentes rodoviários e 2148 ficaram gravemente feridas), mas também porque o sedentarismo é considerado pela OMS uma das doenças do século, resultando em AVC’s, diabetes, stress e na maior incidência de cancro.
Uma cidade que aposta na mobilidade activa e nos transportes públicos torna-se numa cidade mais competitiva e num melhor espaço para viver, trabalhar e visitar.

Como vês as cidades no futuro?
As cidades no futuro terão menos carros. É nesse sentido que estão a caminhar todas as cidades de referência no mundo e Lisboa não será diferente. Os impactos do (ab)uso do automóvel são imensos, na qualidade de vida das pessoas, na saúde, na economia e, claro, no ecossistema que todos sabemos estar, inegavelmente, em risco.
As pessoas terão que perceber que andar de carro e estacionar à porta não é um direito inalienável, pois esta opção tem impacto na comunidade e no planeta onde vivem. As cidades têm que se adaptar e ser capazes de dar respostas variadas e integradas, que se coadunem com diferentes pessoas e necessidades. Ao sistema cabe ser flexível e multimodal. Às pessoas cabe tomar consciência de que têm que fazer parte da solução, questionar os seus próprios hábitos e deixar de parte alguns mitos nos quais se habituaram a acreditar.
As cidades serão lugares melhores para viver. Tenderão a reconquistar a escala humana. As crianças voltarão a poder ir para a escola pelo seu pé, em segurança, a rua deverá recuperar o seu papel enquanto espaço de troca, de usufruto e encontro. Qualquer mudança implica dores de crescimento, mas estou certa de que a cidade do futuro será mais saudável e mais feliz.

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.
PARTILHAR Tweet about this on TwitterShare on FacebookPin on PinterestGoogle+Email to someone

2 Comments

  1. Rita, gostei de conhecer o seu testemunho no uso da bicicleta. Também eu, uso diariamente a minha bicicleta e “adoro”, por todas as razões. Infelizmente, na “cidade” onde moro, VFXira, não temos uma única ciclovia, mas tal não me impede de andar diariamente no meio dos carros.
    Pelo que conheço de outras capitais europeias, nesta matéria ainda temos muito que evoluir…obrigada

    1. Célia
      Obrigada pelo seu feedback 🙂
      Há muitos anos que venho defendendo e trabalhando para que exista uma rede ciclável em Lisboa. Felizmente as minhas convicções e a minha profissão vieram a coincidir.
      É uma questão de tempo até que as cidades se tornem realmente cicláveis.
      Até lá, é bom saber que não se coibe de circular na via!
      Rita

COMENTAR