DESTRALHAR


slower_destralhar_2Há quase dois anos que tenho o Walden na minha mesa de cabeceira. Mais precisamente, comprei-o depois de ler esta crónica do Tolentino Mendonça onde encontrei a seguinte verdade:

“A riqueza de um homem é proporcional não ao número de bens que ele pode possuir, mas ao número de coisas a que ele pode renunciar.”

Esta ideia tão clara e tão sã, tem-me levado a questionar, mais vezes do que habitual, coisas importantes e outras tão triviais como a necessidade de ter um microondas, por exemplo (depois do nosso se ter avariado há uns meses, abstive-me de o reparar e em menos de nada percebi que estava apenas a ocupar espaço).

Assim, aproveitando a boleia deste início de ano, entre presentes de natal que precisavam de lugar e a arrumação de presépios, dei por mim a olhar para o nosso espaço e a querer dar uma volta às coisas.

Quero, cada vez mais, viver num espaço acolhedor onde as coisas – móveis, livros ou alguidares – respiram e, principalmente, façam sentido porque nos identificamos com elas, com a sua origem, porque são úteis ou porque têm uma história a contar.

Em resumo, a ideia é tratar melhor a nossa casa e, dessa forma, também quem nela habita. E isto passa, não só por pôr as coisas no sítio certo mas, sobretudo, por um processo interior de discernimento a fim de nos libertarmos do que, na verdade, não nos acrescenta nada.

Por isso, antes de começar a arrumar e seguindo alguns destes conselhos, vou guardar um dia por mês para retirar livros das prateleiras, roupa das gavetas, loiça dos armários, brinquedos das caixas e, finalmente, toda a miscelânea que não tem categoria. Para ver o que temos, pegar e tocar em cada coisa, avaliar o seu sentido e dar-lhe o destino certo. Acredito que, apesar de achar que não termos muita tralha, ainda nos vamos surpreender com a quantidade de sacos que irão sair desta casa.

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A primeira frente a ser atacada será a da papelada, aproveitando a viragem, para deitar fora o IRS anterior a 2010, fechar o de 2015 e abrir lugar para o arquivo de 2016. Passaremos depois ao correio e aos recados da escola perdidos pela casa, passando depois pelos livros e fotografias (alguns tesourinhos deprimentes devem ser banidos para sempre); terminaremos numa criteriosa selecção de arte infantil.

Há por aí mais alguém a passar por esta febre de destralhar a casa? Alguma estratégia para partilhar?

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.
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19 Comments

  1. A minha casa está a reduzir de tamanho. Vivi em 4 assoalhadas sózinha e agora vivemos 3 em 3. Vamos agora ter de fazer obras para arranjar mais espaço em casa, e para fazer obras tenho antes que arranjar espaço para trabalharem! Descobri que tenho caixas de livros que guardei e nunca mais vi. Outras que já nãos sei o que escondem. Acho que vão ser as primeiras coisas a ir. Depois três roupeiros para ver de cima a baixo!
    Sim todos os dias penso nisso.
    E quando me perguntam se quero mais alguma coisa para a casa eu respondo que antes tem que sair algo para caber!

  2. Uma gaveta/ prateleira por semana permite ter sempre a casa destralhada, limpa e organizada. Se for uma gaveta “fácil” até nos podemos dar ao luxo de fazer 2 ou 3. Usando esta técnica não temos a sensação de que é uma TAREFA mas sim algo que se faz com tranquilidade.

    1. Obrigada Lia! Este método / livro que refiro no post, vai numa outra direcção: fazer um “destralhamento” profundo, que será (espera-se) transformador. Segundo esta ideia, depois da “purga”, não só não entrará mais “tralha” em casa, como a tendência para acumular coisas fora do lugar será anulada, não sendo à partida necessário implementar outras rotinas de arrumação. A ver vamos…

  3. Eu tentei envolver a minha L (4 anos e meio) na “purga”… especialmente dos peluches dela… difícil também (ou pior!) é convencer o marido, neste destralhar dos brinquedos (oh criança maior…)… desisti. Tenho feito mesmo “as escondidas”… mas nem sempre é facil. Sobretudo porque quase todos foram dados, e porque eu preferia “dar aos primos” como sempre se passou na minha familia, mas cada vez sao menos as crianças, e agora há toneladas de brinquedos novos e baratos… enfim 😐
    é por isso que prefiro sempre que os presentes sejam roupa… ou algo que nao dure sempre… também ajuda a não acumular…
    Boa sorte!

    1. Obrigada! Boa sorte aí também. Pois é.. apostar em menos brinquedos de maior qualidade também é uma maneira de fugir às “toneladas” de brinquedos e geralmente acaba tornar a brincadeira numa melhor experiência para os míudos.

    1. Quero 🙂 O Walden é tão actual agora como na altura em que foi escrito… impressionante e talvez um pouco assustador. Ainda não li a desobediência civil , mas tb deve ser interessante de ler nos dias que correm. bj!

  4. olá! Só agora cheguei por aqui ! Nunca tinha dado esse nome as minhas coisas ,tralha ,mas é um nome justo quando as coisas começam a ser um excesso. Comecei a alguns anos pelo feng shui,mas na altura com pouca divulgação achava confuso e pouco prático ,continuei a juntar… passaram-se alguns anos e através de canais estrangeiros conheci os acumuladores compulsivos que compreendi que tinha uma causa por detrás de tal doença ( explicado por um personal organizer Peter Walsh),ainda mais me interessou destralhar ,não era o simples deitar fora mas uma razão para o fazer, Mais recentemente as explicações e dicas de Marie Conde de arrumação e o ultimo livro de Paula Mariano fizeram com que as minhas coisas fossem literalmente passadas a pente fino e acreditem depois de ter feito o desapego de muita coisa que estava relacionada com objetos e muito papel guardado e fotos ,deixei de ser perturbada por pensamentos ,a conseguir ouvir canções que estavam relacionadas com todo o apego da dita tralha. Com a Mónica Araújo aprendi que a nossa casa é o reflexo do nosso interior,tem sido um processo lento com consciência e com sentido .Como diz o meu professor de yoga : devagar que tenho pressa para chegar.

  5. Olá! Outra vez.depois de ler o que escrevi fiquei com a sensação que me assumi uma acumuladora compulsiva,mas não o sou ,tenho tralha sim, mas com “moderação”.tenho praticado o desapego e sinto que a energia que me bloqueava está a fluir,tanto que um dos meus sonhos é poder ajudar as outras pessoas a fazerem o mesmo ,embora seja um processo muito pessoal ,gostaria de lhes dizer que é possível existir mudança nas suas vidas quando simplificamos o nosso meio o nosso interior. Sinto que um dia vou conseguir ajudar alguém,nem que seja uma só,já vai valer a pena.Uma dica : sintam com o coração <3

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