DESTRALHAR · PAPELADA


slower_papelada1Quando terminei, a primeira etapa do destralhar a que me propus – os papeis – fui rever o manual de instruções, dei-me conta que comecei metendo os pés pelas mãos.

Pois é, não correu tão bem como podia, se tivesse estudado bem a lição. As instruções eram começar pela categoria mais fácil e terminar na mais difícil, quando já estamos quase em modo profissional. Primeiro roupa, seguido de papeis, diversos (aqui cabe quase tudo, de amostras de maquilhagem a ferramentas) e terminar nos objectos sentimentais.

Mas eu saltei a primeira etapa. Achei que começar pelos armários e gavetas, seria começar por um tema difícil, para mim. Que iria navegar semanas num mar roupa e que corria o risco de me afogar na primeira vaga. Não tanto pela roupa a uso ou roupa de casa, mas pela roupa de bebé guardada, pela parte que me coube de bordados das avós e lençóis antigos, e finalmente os panos e tecidos que vou coleccionando para projectos de costura. Na verdade, agora que penso nisso, esta roupa guardada tem um forte lado sentimental, logo deveria ter sido abordada em último lugar. Falhou-me isso mesmo, o identificar os objectos sentimentais nas diversas categorias.

Avancei então para a papelada. Isto faz-se numa tarde, pensei eu. Há pouco tempo tinha dado uma volta na secretária, e achei que já ia com algum avanço. O tanas, porque mais uma vez, acabei por me embrulhar no sentimental.

Mergulhar nos livros e descobrir postais velhinhos lá dentro, rever fotografias daqueles que já não vemos vai para 20 anos e ainda atravessar resmas de cartas, diários e as agendas que sempre guardei, é uma viagem da qual não se regressa incólume, nem depressa. É preciso estar preparado dar-lhe tempo parar revermos a nossa história em objectos e à luz do agora. E custa um bocadinho, pois além das coisas que nos põem um sorriso na boca, há também o voltar a dar de frente com algumas dores de crescimento. Há um lado de purga em tudo isto também, um mal necessário sem o qual o lastro não cai. Apertem bem os cintos, é o que vos digo.

slower_papelada3slower_papelada4Pelo meio do processo, apercebi-me entretanto que as crianças têm desenhado pouco. Ou melhor, que a A. tem desenhado pouco (que o V. raramente pega nos papeis e material de desenho por muito bem que esteja organizado e exposto junto à mesa para os cativar).

Há muitos desenhos, muito papel usado, mas a maior parte acabam por ser rabiscos inacabados. Claro que é bom fazer experiências e desenhos espontâneos, mas senti, ao olhar para os desenhos dos últimos tempos, que faltavam os aqueles feitos com tempo, os que se começa num dia e se acabam noutro, com dedicação, se calhar na a minha companhia. Claramente uma chamada para reflexão.

Descobri uma dificuldade minha também – A de me libertar das coisas depois de as separar, a tendência para deixar os sacos que juntei por aí tempo demais. O lixo é fácil, apenas uma questão de ir ao ponto de reciclagem mais próximo. Mas nem tudo fazia sentido ir para o lixo e destinei romances, livros de bebé e livros dos miúdos para diferentes instituições. Este correr de capelinhas tomou o seu tempo, e nesta primeira volta demorei mesmo muito a tirar as coisas de casa. Mais uma coisa a melhorar na próxima etapa.

E agora, com a ajuda desta cábula, de volta ao principio, sem desculpas!

PARTILHAR Tweet about this on TwitterShare on FacebookPin on PinterestGoogle+Email to someone

2 Comments

  1. É mesmo assim! Uma viagem ao passado é sempre dolorosa, pelas coisas boas irrepetiveis e pelas menos boas que recordamos. Sempre que se ‘destralha’ isso acontece. O saldo é bom porque é libertador.

COMENTAR