DE VOLTA


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O regresso às aulas no ano passado foi puxado e, daí até ao Natal, foi sempre a acelerar. Em vez de entrarmos no outono a abrandar, como pede a estação, nós estávamos claramente a remar contra a maré (ainda que involuntariamente) e ao fim de um tempo todos nos estávamos a ressentir.

As manhãs eram turbulentas e os finais de tarde curtos demais. Lembro-me de, durante semanas a fio, sair do trabalho e ter sempre voltas para dar, actividades, reuniões, consultas, supermercado. As semanas corriam como uma gincana, mas das muito pouco divertidas, entre tarefas e obrigações. Eu própria já estava cansada de me ouvir a dar ordens e de dizer pela enésima vez que não havia tempo para mais uma história, brincadeiras na banheira, fazer desenhos, etc.

Entrei assim no novo ano a pensar que tinha e havia de conseguir fazer melhor, para bem dos miúdos e meu também. Dei um passo atrás e fiz um mapa e uma lista (há sempre utilidade para uma listinha) do nosso dia-a-dia, para ver com mais clareza onde era preciso ou possível mexer e o que poderíamos largar. Era preciso ganhar tempo para estar, brincar, e também fazer, mas sem deixar de respirar.

A primeira coisa a ir foram os trabalhos de casa do V. durante a semana. O nosso 1º ciclo  tem das maiores cargas horárias da Europa e trazer a escola para casa, ao final do dia, não fazia sentido. Falou-se com o professor ficou assim combinado que a obrigação dos TPC’s ficaria apenas para o fim-de-semana.

Depois, os duches dos miúdos passaram para dia-sim, dia-não no inverno. Sim, há dois cascões cá em casa (um mais do que o outro) e a pele deste raposinho em particular é especialmente seca e sensível. Se calhar falhar uns duches até lhe faz mais bem que mal. Vai chegar o dia em que ele vai querer andar janota e cheiroso mas, enquanto esse dia não chega, vivemos bem assim.

Tornei-me também mais regular numa coisa básica: dar um olho no frigorifico ao domingo, planear as refeições da semana e tratar do supermercado de lista na mão, aproveitando uma hora morta que tenho no inicio da semana no meio das actividades deles. Isto poupou tempo, dinheiro, além de reduzir desperdício. O resto das compras mais miúdas, passaram a ser feitas pertinho de casa, às vezes até pelas crianças. Um verdadeiro 2 em um: aula prática de matemática e estudo do meio para eles e menos uma volta para mim.

O terceiro passo e um dos mais significativos, foi ajustar o horário de saída do trabalho, sem diminuir o seu número de horas. Este foi o mais estudado, já que não dependia só de mim, mas tem corrido bem. Passei a poder ir buscá-los à escola com frequência, às vezes a pé, o que me dá uma alegria enorme.

Finalmente, de regresso à casa da partida, acho que à 3ª volta estou finalmente a profissionalizar-me na coisa e houve algumas coisas que ajudaram a que tudo corresse bem:

  • Delegar, delegar, delegar – Mandar forrar os livros fora (andei a dormir os últimos 2 anos!). Bem sei que é mais um custo a juntar a um pacote já de si pesado mas o que ganhei em sanidade e disponibilidade na primeira semana de aulas compensa largamente. Até porque, acabou por me libertar as noites e, acabei por voltar a organizar-me para levar marmita para o trabalho, recuperando facilmente o investimento.
  • 1 filha da mãe + 1 filho do pai – Este ano cada pai responsabilizou-se por marcar o material de um filho. Poupei-me assim, a escrever o nome do meu filho umas 55 vezes. Se voltar a ser mãe, vou chamar ao meu filho de Zé. Se for menina, Zé também.
  • Cábulas – Afixar bem visível o horário com as actividades da escola e extra escola de todos e a tabela de quem traz e leva cada dia ajuda muito, especialmente nos primeiros tempos. Divulgar a informação a avós e outros potenciais interessados também pode ser útil.
  • Em equipa que ganha não se mexe – Manter as mesmas actividades extra-curriculares durante um ciclo facilita, e muito, o regresso às rotinas.
  • Deixar para depois – O regresso à escola faz-se em Setembro e o regresso às actividades faz-se em Outubro. Não é preciso ir a todas, muito menos em catadupa, e fasear esta adaptação trouxe-nos mais benefícios que quaisquer 4 treinos de futebol.

Sei que para o ano vou estar de volta a este post, vou ter novas ideias e rever outras, e é mesmo assim: um processo de tentativa e erro, como em tudo. Mas importante mesmo é sentir que temos vindo a respeitar mais o nosso ritmo e, a pouco e pouco, a encontrar o nosso equilíbrio.

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.
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