O CICLO DE VIDA DA NOSSA ROUPA


o ciclo de vida da nossa roupaQuem se iniciou na última semana no desafio destralhar, por esta altura já se começou a perguntar o que é que vai fazer aos sacos de roupa excedente que juntou.

Enquanto isso, esta semana o Fashion Revolution, um movimento que surgiu na sequência do desastre do Rana Plaza que causou 1.134 mortos no colapso de uma fábrica têxtil no Bangladesh em 24 de Abril de 2013, marca esta data com a Fashion Revolution Week, com o objectivo de consciencializar o mundo sobre a exploração nesta industria e apelando à sua transparência, com a pergunta #whomademyclothes.

Por estas duas razões, esta semana falo-vos aqui sobre o ciclo de vida da nossa roupa: de onde vem e para onde vai.

Nos últimos 20 anos temos vindo a observar um crescimento de 400% da industria da moda. No entanto, apesar deste crescimento extraordinário, no mesmo período de tempo e ao contrário de todos os outros bens, o preço da roupa tem diminuído. Este fenómeno explica-se através da transferência de grande parte da produção para países em desenvolvimento, na Ásia sobretudo.

Este facto não só aumentou a pegada de carbono da roupa, como deu origem a um novo modelo de negócio chamado Fast Fashion. Agora, a chegada de novas colecções às lojas, já não acontece só a cada estação, mas muitas vezes semanalmente, gerando um estímulo adicional ao consumo e pressionando fortemente as fabricas para produzirem cada vez mais depressa e mais barato.

Assim, a t-shirt que compramos a um preço baixo esconde um preço alto, em termos de direitos humanos e direitos dos trabalhadores (no Bangladesh o ordenado médio de um trabalhador têxtil é 32€) e em termos de impacto ambiental, pois a industria da moda é actualmente a segunda maior poluente do mundo.

Mas os danos não se ficam pelo caminho que a roupa percorre desde a sua produção até às lojas. Como consequência da Fast Fashion, a roupa tornou-se um produto descartável nos países mais desenvolvidos e só nos EUA cada pessoa descarta anualmente uma média de 37 kg de roupa, sendo que boa parte não é sequer biodegradável.

Doar roupa para caridade geralmente alivia um pouco a nossa consciência, mas com este novo modelo de consumo, esta deixou de conseguir escoar o excesso de oferta que agora existe face à procura por parte das populações carenciadas no mundo ocidental. Esta é a realidade também em Portugal.

O que acontece à roupa que doamos então? Os contentores com este fim que têm surgido nos últimos anos no nosso país são propriedade de empresas autorizadas pelas autarquias a utilizar o espaço público. Cada contentor está identificado com o nome da empresa a que pertence e dispõe de um telefone de contacto através do qual se podem obter informações sobre a sua actividade. Geralmente estabelecem acordos com instituições de solidariedade, associando-se assim à sua imagem e captando mais doações. Uma vez instalado o contentor, procedem às recolhas e fazem a triagem dos bens doados.

Dependendo das empresas e dos acordos estabelecidos, estas podem reverter uma parte do seu lucro ou canalizar alguns dos bens doados para as instituições, caso estas o solicitem. Estima-se no entanto, que apenas 10% a 30% da roupa recolhida seja efectivamente encaminhada para caridade ou lojas solidárias.

A maior parte da roupa recolhida será vendida e exportada a peso para países em desenvolvimento. Uma menor parte será encaminhada para reciclagem e aproveitada para panos de limpeza ou desfibrada para material de enchimento ou de isolamento. O que não for passível de recuperação, será finalmente encaminhado para um aterro.

À medida que descartamos a nossa roupa barata cada vez mais rapidamente, mais rapidamente também estas estão a ser despejadas nestes países. Hoje em dia o negócio de exportação de roupa usada move muitos milhões de euros. Em 2013, por exemplo, este negócio rendeu aos EUA 609 milhões de euros, ao Reino Unido 531 milhões de euros e à Alemanha 447 milhões de euros.

No entanto, se por um lado estas exportações geram emprego e fornecem roupa a alguns dos povos mais pobres do mundo, existe também um lado mais negro. Muitos são os que se queixam que a obroni wawu (roupa do homem branco morto, traduzido à letra) como lhes chamam no Gana, contribuiu para o colapso da sua indústria têxtil, prejudicando sua economia e cultura local. Só neste país, a industria têxtil caiu 80% entre 1975 e 2000. Na Nigéria, desapareceu por completo uma força de cerca 200.000 trabalhadores têxteis.

Este efeito colateral é particularmente perverso no caso do Haiti, onde as roupas usadas chegam maioritariamente dos EUA. Esta situação está na origem da queda da sua industria têxtil e consequente desemprego. Actualmente o Haiti produz maioritariamente t-shirts baratas que exporta, precisamente para os EUA, perpetuando um ciclo de pobreza.

Sobre tudo isto e mais, não deixem de ver o True Cost, um documentário, que aborda de forma transversal o tema, passando pela economia, sustentabilidade, ambiente e direitos humanos. Sobre para onde vai a nossa roupa doada, vale a pena ler também este artigo e ver este documentário.

Deixo-vos também a deixa: sejam curiosos, olhem para as etiquetas da vossa roupa e perguntem #whomademyclothes?

É designer gráfica. Vive em Lisboa e tem dois filhos. Gosta de dias que se desenrolam sem planos, de caminhar, de fotografia e não passa sem doses maciças de sol. Da vontade de abrir caminho para uma vida mais simples, em sintonia com o seu ritmo e o da natureza, inicia o blogue Slower em 2015. Dois anos depois, abre a casa a colaborações e torna o Slower numa comunidade participativa. Acredita que um dia ainda vai fazer um inter-rail com os filhos e que eles vão gostar. É uma optimista.
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