CAMINHO DE SANTIAGO . PARTE I


caminho_santiago_slower_1A primeira vez que tive vontade de fazer o Caminho de Santiago foi há uns bons 15 anos, quando a minha irmã fez um deles. Da vontade à concretização houve tempo para viagens outras, empregos vários, filhos dois… E Santiago foi ficando em espera.

Entretanto, no início destas férias de Verão, fiz pequenas caminhadas diárias e Santiago voltou a fazer-me companhia nessas horas. A pouco e pouco, o é-agora-ou-nunca dos trinta-e-tal-quase-quarenta começou a manifestar-se e o plano foi surgindo:

  • Aproveitar aquela semana em que ninguém marcou férias no emprego.
  • Roubar dias às férias que tinha deixado para mais tarde acompanhar as das crianças.
  • Concretizar o ponto acima, sem culpas.
  • Empandeirar os miúdos, pela primeira vez, para uma semana de avô (que só lhes faz é bem).
  • Concretizar o ponto acima, sem culpas.
  • E por último e mais importante: ter a cúmplice certa, aquela com quem comunicamos através de boas conversas, mas também pelo silêncio, que nos permite estar “sozinhos acompanhados”.

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Não foi fácil: reunir estas condições, foi um processo daqueles que nos faz pensar que, se é tão complicado, talvez não seja para ser (quem é mãe sabe que às vezes para fazermos alguma coisa só para nós é preciso ser mula). E quando já estava a ficar desanimada, as coisas alinharam-se e partimos.

O Caminho de Santiago começa-se pelas mais variadas razões e há peregrinos tão diversos quantos os seus países de origem: há os religiosos, os desportistas, os místicos, os competitivos, os historiadores, os turistas, e mais.

Não sei se encaixo em algum perfil dos que mencionei. Tinha vários motivos para ir, mas acima de tudo queria partir por partir: sentir de novo a leveza de quem leva uma mochila às costas, a abertura que surge quando experimentamos algo novo e conhecemos novos lugares, pessoas, costumes.

E assim foi. Como o caminho que fizemos não é dos mais populares e nós éramos apenas duas, foi fácil ir conversando com quem nos íamos cruzando nos albergues, sempre mais vazios do que cheios, e pelas tascas das terrinhas pelo caminho. Na verdade, acabámos mesmo por nunca caminhar sozinhas, tivemos sempre boa companhia.

Foi também uma surpresa perceber como os peregrinos são uma presença forte e acarinhada aqui, como fazem parte da paisagem destas terras e como o galego é tão próximo do português (afinal há espanhóis que nos percebem).

A paisagem de Floresta Mediterrânea (ameaçada no nosso país) acompanhou-nos sempre e é difícil não ser tocado pelo facto destes caminhos serem percorridos desde o séc. IX, movendo perto de 200.000 peregrinos por ano, a pé, de bicicleta ou a cavalo. Enquanto avançava, ia pensando nos milhares de outros peregrinos se aproximavam de outras direcções para o mesmo ponto ao mesmo tempo que nós, e como era assim sempre, dia após dia, ano após ano, século após século. Uma convergência de pessoas e energia na mesma direcção.

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Fizemos 104 km em 5 dias. Podiamos ter andado mais e mais depressa, mas o objetivo não era nenhuma proeza olímpica (até houve tempo para uns mergulhos numa piscina municipal), e passava mais por estar presente corpo e mente, na paisagem, com os outros e no diálogo interno que sempre surge quando caminhamos no ritmo certo.

Caminhar assim é uma espécie de não “fazer nada”, uma forma de intimidade connosco próprios, por vezes em falta no dia-a-dia. É meio e fim, viagem e destino.

Há uma porta velha pendurada no pátio de um restaurante em Lisboa, em jeito decorativo, que diz “Banhos de Luz” (imagino que pertencesse em tempos a um serviço de fototerapia) e sempre que lá vou procuro-a e sorrio, porque me faz viajar internamente aos meus momentos de luz, onde me senti de alma lavada, senti calor. Assim guardo estes dias de Caminho e sei que vou voltar a percorrê-lo, mais a norte ou a sul, daqui a 2 anos ou daqui a 20.

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(algumas fotos têm créditos de Rita Castel Branco)

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7 Comments

  1. Estive no princípio e no fim da caminhada e até um pouco nos dias de treino. Tentei-me. Mas depois achei que tanta idade de diferença ia fazer alguem infeliz: ou eu que não aguentava ou elas que já não teriam pachorra para aturar o meu ritmo. Ficou a nostalgia da não ida, agora renascida pela bonita prosa desta querida sobrinha.

  2. Wow!!… Está na hora de me lembrar que estou também nos trinta-e-tais-quase-quarenta e pôr-me a caminho!… Ocorre-me um “também quero!!!”… obrigada por acordares “a mula” 🙂

  3. Olá Felipa, gostei de ler a história dessas pequenas coisas que levam ao arranque da empreitada. A história de lá já a sabia, com gosto recordei. Beijinhos

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